segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Tinha esse cara

Então, a verdade é que tinha esse cara. O nome dele era André e ele era um garoto bem comum. Classe média decadente, pai publicitário separado da mãe psicóloga, dizia que era branco mas na Europa passava fácil por preto, dezesseis anos de cabelo preto caindo descuidado pelos ombros, estaturazinha mediana, All Star mais gasto do que precisava no pé, camisetas geralmente pretas. André era esse cara.
O garoto crescia estudando em uma dessas escolas públicas tidas como de elite. Sabe, aquelas das quais todo pai enche a boca pra dizer 'meu filho estuda lá'. Aquelas mesmas, aquelas que definem a 'elite intelectual' da cidade. E o nosso André, esse garoto bem comum de classe média decadente, estudava em uma dessas escolas. Não é como se ele fosse um gênio nem nada, André só não teve escolha - a mãe disse 'ou passa ou vai pro município'. Não tem nada mais decadente pra uma criança de classe média decadente que estudar no município. Daí, André se lascou de estudar e passou pra tal escola de elite.
A gente encontra o André por aí, uns cinco anos e meio (tire ou ponha alguns dias) depois de entrar no colégio. E eu vou te contar, rapaz... a vidinha do André estava bem mais ou menos...

domingo, 1 de novembro de 2009

Erros

Sim, eu cometi um puta erro. Quase todo mundo já sabe o que aconteceu mas eu vou explicar.
Estava namorando com uma menina e estava muito difícil manter o relacionamento, apesar de todos os sacrifícios que eu fiz. Ela estava muito triste e decidiu terminar. Isso me deixou arrasado porque eu estava muito apaixonado. Fiquei desesperado. Meus amigos me ajudaram, como sempre fizerem, me impediram de fazer alguma besteira. Quando já estava superando ela me ligou, disse que queria conversar. Me estressei com mudanças de planos, bebi horrores. Ela foi encontrar uma amiga no meu bairro, uma amiga que temos em comum que estava junto comigo inclusive. Eu tentei ficar distante, mas eventualmente por causa de um amigo que eu já estava explorando demais, fui para a mesma mesa. Não nos falamos e pouco depois fomos conversar. A conversa correu muito mal; como de costume, a menina em questão foi agressiva e ofensiva e dessa vez eu não tinha a paciência de sempre. Eu estava cansado, irritado e bêbado - não que isso justifique o que eu fiz. O que aconteceu depois foi simplesmente errado. O maior erro que eu cometi na minha vida. Uma coisa que me atormenta o tempo todo e me deixa com nojo de mim mesmo. Ela me deu um tapa na cara e eu reagi. Acertei três tapas na cabeça dela, ela começou a gritar e caiu no chão. Joguei a bolsa dela longe na rua, com raiva.
Só precisava desabafar mesmo e deixar registrado para sempre esse erro para que eu nunca me esqueça dele. Foi o ponto mais baixo da minha vida até agora e espero que nunca chegue a um ponto mais baixo.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Um Menino Bochechudo

Era um menino bochechudo
também um pouco rechonchudo.
Mas não sabia fazer nada.
Sempre acordado de madrugada
vendo TV e tocando bronha,
quando não saía pra fumar maconha.
Não é maluco, só meio sequelado.
E tem gente que acha que ele é viado.

Era um menino bochechudo
e achava tudo muito estranho.
Ficou ainda mais confuso
ao ver sua mãe se masturbando.

Ficava sempre isto dando
quando estava com o Armando
mas pra ele era normal
educação sexual.

Era um menino bochechudo
e achava tudo muito estranho.
Ficou ainda mais confuso
ao ver sua mãe se masturbando.

Esperança

Você conhece a esperança?
ELA MORREU! ELA MORREU!
Você conhece a esperança?
ELA MORREU! ELA MORREU!

Você não pode conhecer.
Antes de você saber,
ela já tinha começado
a desaparecer.

Você procura na escola,
você procura no trabalho.
Você faz uma pergunta inocente
mas a resposta te faz tremer.

Você conhece a esperança?
ELA MORREU! ELA MORREU!
Você conhece a esperança?
ELA MORREU! ELA MORREU!

Ela está morta e enterrada.
A esperança se acabou
e você é um babaca!
Ela está morta e enterrada.
A esperança se acabou
e você não fez nada!

Você conhece a esperança?
ELA MORREU! ELA MORREU!
Você conhece a esperança?
ELA MORREU! ELA MORREU!

E assim fez-se o Lobo!

Origens - segundo consta nos anais da egolatria - são narrativas prodigiosas de bravura e maestria. Histórias incríveis de feitos que ardem como brasas, que nos falam de homens aptos a voar sem asas, a sobreviver a balas e bombas, tudo isso sem descanso... e de por que quase nunca essa turma afoga o ganso. Razão pela qual sentimo-nos culpados e pesarosos, uma vez que nossos relatos, embora esplendorosos, nada mencionem de raios cósmicos de alta freqüência e de outras desagradáveis perversões da ciência. Em suma, iniciou-se esta fábula de cunho psicótico com um reles extravasar de líquido amniótico. Há de perpetuar na infâmia o
nome dos pais da besta-fera, se não lá, então no fétido lamaçal onde o palavrão impera. Ou melhor, perpetuar-se-iam não se houvessem perdido no subseqüente holocausto que a tudo deixou aturdido, dando cabo e destroçando qualquer forma de registro civil quer de esperma, quer de placenta, de ovo ou de parto tão vil. Reza a lenda, se é que, em alguma parte, lenda reza, que o parto durou um mês de asquerosa torpeza. E quando se aflorava a dilatação em toda a sua amplitude, estando iminente a circustância da maior desvirtude, urrou a prturiente que não mais suportava, como se cedendo à cólica maior que a detonava. Rasgando tudo que havia nela desde o pêlo encravado à canela, em meio a podreiras e conteúdo amoral, nasceu assim o famoso maioral. Ainda hoje, aqui e acolá, há quem defenda a idéia saudável, ainda que horrenda, de que deveria o serviço social czarniano esfolar a criança de modo torpe e desumano. Mas, em verdade, vozes essas servem mui raramente para algo além de reclamar Eu não disse, minha gente? Quando o serviço social acolheu aquele agitado pivete a ninguém ocorreu meter-lhe nas fuças um canivete. Para sua eterna e mais que duradora desgraça, os assistentes sociais que encararam a bagaça, por mais que tentassem, não viram outra opção a não ser oferecer o pequeno traste à adoção e rogar para que o otário que acolheste o fedelho fosse pervertido, selvagem e de espírito parelho. Então, a criança prosperou e chegou à idade adulta, fazendo ao avesso tudo o que faria uma pessoa culta. Tiroteios, degolas, extorsão e assassinatos. Cafetinagem, estupros, seqüestros e estelionatos. Todavia, ainda que a vida tudo fizesse para ocupá-lo, sua mente ruminava idéias dignas de causar abalo. Ele ponderou "Se tantos se parecem comigo, o que fazer para livrar-me deste castigo? Meu ego clama por ser o único da minha laia!" E, ansioso
por formular alguma ignóbil maracutaia, empreendeu em seu pútrido cérebro, enorme devassa, concebendo nada mais que extermínio em massa. O diminuto agente bacteriano, letal como pitonisa, cultivado por ele após anos de intensa pesquisa, avançou sobre tudo que avistou pela frente até não sobrar ser vivo, beato ou descrente. Ao contemplar a extensão e a pujança de sua obra funesta, disse: Ei, eu levo jeito! Taí uma coisa que não me molesta. A matar, mutilar e trucidar minha vida dedicarei. Não necessariamente nessa ordem, assim farei. E honorários para meus serviços muitos hão de pagar. De tanta grana, com certeza, eu vou me embriagar. Não farei alianças ou terei qualquer tipo de parceiro. Rodarei sozinho pelas vias deste cosmo trapaceiro. E tendo vociferado tudo que havia para ser dito, deixou seu planeta rumo ao espaço infinito.
Desta modo gratuito, violento e um tanto bobo, teve início a sensacional carreira de Lobo!