A curva
A música soava com uma frequência rotineira, criando uma sedutora trilha sonora que vazava suavemente dos alto-falantes. O som de teclados eletrônicos e percussão leve era meu parceiro fiel em nossa jornada através das cortinas de negrume da madrugada. As janelas estavam frias ao toque, evidenciado a temperatura mais baixa do lado de fora, o que me enchia de estranheza. Sentia um frio brutal, invasor, me penetrando a carne e os ossos, gelando meu sangue nas veias. Através das manchas de impressões digitais que pintavam o vidro em sua sujeira, observei atenciosamente um casal se abraçando na esquina e invejei, de dentro do meu pesado casaco fechado, o calor que eles dividiam enquanto se protegiam da chuva, que escorria como uma preguiçosa cascata das marquises para as calçadas.
A música pulsou num timbre mais alto, porém ainda gentil, como o chiado distante de um pote de água fervente. Lancei um olhar rápido para ela, que dirigia, a testa franzida em uma careta permanente. O céu já brilhava fracamente, dando-nos um vago vislumbre da aurora distante. O carro disparava agora por um trecho dolorosamente reto da estrada, sem muito o que se observar pela janela. Ela não tinha movido o volante nem ao menos dois graus nos últimos vinte minutos. Eu não me lembrava a última vez que a havia ouvido falar desde que entramos no carro.
Um trem havia saído da cidade uma hora atrás, mas não esperara por mim. Enquanto aguardava, sentado em minha única mala, um cigarro pendurado nos lábios secos, percebi finalmente que outra época havia chegado, mas não a que eu esperava. Eu esperava a época dos recomeços, aguardava ansiosamente a aurora da minha nova era. Mas a época que chegava era simplesmente aquela dos resfriados e sobretudos, então abri minha mala e vesti meu casaco. Ao abrir a mala, vi uma foto de nós dois. Imediatamente, resquícios das memórias do verão inundaram minha mente e reconheci que ainda eram os dias que eu guardava mais carinhosamente nos confins do coração. Fomos tão perfeitos e tão felizes naquele verão e me sentia reconfortado ao pensar que se lembrariam de nossos sorrisos, ainda que fosse apenas por ser só o que conheceram. No começo, ela era como uma flor para mim, brotando de uma terra morte que mal tinha ervas daninhas, se dobrando na minha direção. Me agarrei ao caule dessa flor e puxei até arrancar suas raízes do chão, pensando que assim encontraria o que tanto procurava. Em minhas mãos, as pétalas murcharam e escureceram, então apressadamente a coloquei de volta na terra para que ainda pudesse viver e fui embora. Onde teria errado? De quem era a culpa? Saí da estação na mesma hora, a foto no bolso, com a certeza de ter errado ao ir embora. Ao sentir a chuva fria da tempestade que se aproximava, vi o carro dela estacionado.
A música parou, o que me tirou das lembranças, me jogando de volta para a atmosfera gelada daquele carro. Sem o som da música, o carro parecia parado também, a paisagem tão repetitiva que era estática. Considerei que se estávamos quietos na viagem era porque queríamos chegar em casa. Sem desviar o olhar, com um gesto quase mecânico, ela apontou para o botão de reprodução suavemente com a ponta de sua unha manicurada. Eu a impedi, segurando sua mão, que ela rapidamente levou de volta para o volante. Eu finalmente estava sendo resoluto... poderia ela me pedir para mudar?
No final do verão, passamos uma tarde surfando. Eu dividi o pouco conhecimento que tinha com ela e depois assistimos o sol se pondo, a cabeça dela apoiada no meu ombro carinhosamente. O céu deixava de ser um azul tão claro, se tingindo de laranja e vermelho, escurecendo de cima para baixo. O sol distante parecia uma gota de sangue sumindo num copo d'água. Me surpreendi ao perceber que ela estava falando. "Desculpe", eu disse sem desviar o olhar. "Eu não ouvi o que você estava falando. Não ouvi o que você disse antes também." Quando nossa primeira briga começou logo depois, eu me perguntava se tínhamos chegado àquele ponto antes e se chegaríamos nele de novo. Eu não sabia mais o quanto devia esperar dela.
"Por que você está fazendo isso?", ela disparou, finalmente falando, sem esperar uma resposta. Sua voz penetrou o ar viciado como um bisturi fazendo uma incisão, tão inesperadamente afiado que fez meu coração saltar. Dessa vez, ela tinha minha atenção incondicional.
"Eu não estou fazendo nada", eu disse, sem um átimo de crença no que dizia, enquanto ela tocava nervosamente o botão de reprodução. "Isso é o que é melhor. Para mim, para você, para nós." Ou talvez apenas para mim, pensei, enquanto uma lágrima se formava no canto de seu olho esquerdo. Ainda chovia; não uma torrente mas uma garoa fina, triste e gelada que parecia seguir o ritmo sonolento que pingava dos alto-falantes. Eu não te amo mais, era tudo o que eu queria dizer. O frio me abraçava com o carinho de um falso amigo e a aurora se esticava preguiçosa no horizonte, provocando com a promessa de um amanhã melhor.
Ela olhou para baixo e fechou seus olhos por um pouco mais que um instante, suas mãos delicadas se fechando com força no volante. Ela se voltou para mim rapidamente; se olhares pudessem matar, eu teria sido fulminado ali mesmo. Súbito, a música jorrou dos alto-falantes, pulsando forte, raivosa. Então ela estava chorando, então ela estava gritando, então eu estava gritando. Nos perdemos na cadência da canção, duas poças crescentes na tempestade que se formava dentro do carro enquanto do lado de fora parava de chover. Fazíamos chover confissões e insultos, sem respostas ou soluções... e nós nem ao menos sabíamos as perguntas.
"Por que você está fazendo isso?", ela disparou, finalmente falando, sem esperar uma resposta. Sua voz penetrou o ar viciado como um bisturi fazendo uma incisão, tão inesperadamente afiado que fez meu coração saltar. Dessa vez, ela tinha minha atenção incondicional.
"Eu não estou fazendo nada", eu disse, sem um átimo de crença no que dizia, enquanto ela tocava nervosamente o botão de reprodução. "Isso é o que é melhor. Para mim, para você, para nós." Ou talvez apenas para mim, pensei, enquanto uma lágrima se formava no canto de seu olho esquerdo. Ainda chovia; não uma torrente mas uma garoa fina, triste e gelada que parecia seguir o ritmo sonolento que pingava dos alto-falantes. Eu não te amo mais, era tudo o que eu queria dizer. O frio me abraçava com o carinho de um falso amigo e a aurora se esticava preguiçosa no horizonte, provocando com a promessa de um amanhã melhor.
Ela olhou para baixo e fechou seus olhos por um pouco mais que um instante, suas mãos delicadas se fechando com força no volante. Ela se voltou para mim rapidamente; se olhares pudessem matar, eu teria sido fulminado ali mesmo. Súbito, a música jorrou dos alto-falantes, pulsando forte, raivosa. Então ela estava chorando, então ela estava gritando, então eu estava gritando. Nos perdemos na cadência da canção, duas poças crescentes na tempestade que se formava dentro do carro enquanto do lado de fora parava de chover. Fazíamos chover confissões e insultos, sem respostas ou soluções... e nós nem ao menos sabíamos as perguntas.
Nossas vozes entrecortadas se tornaram parte da música. O carro dardejava pela noite. Enquanto nossas vozes diminuíam, a cadência novamente dominou o ar. Adiante, uma curva se aproximava. Ela não fez menção de desacelerar.
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