segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Wakarimasen

Quando eu era mais novo, tinha uma mania chata de dizer que odiava tudo. Odiava livros que eu nunca tinha lido, odiava filmes que eu nunca tinha visto, odiava escritores que eu admirara na semana anterior, odiava quem esbarrava comigo na rua se não pedissem desculpa. Odiava tudo. Coisa de adolescente, óbvio. Com o tempo, entendi que ódio é uma coisa diferente. Várias das coisas que eu odiava na molequice são coisas que eu simplesmente não gostava ou que eu gostava de dizer que não gostava. Algumas eu realmente odiava (e ainda odeio; se esbarrarem em mim na rua, peçam desculpas) mas uma quantidade considerável dessas coisas eu simplesmente não entendia. São elas:

Harry Potter

Se alguém me perguntasse sobre Harry Potter quando eu era moleque, eu teria uma de duas respostas na ponta da língua, dependendo da pessoa. Na maior parte dos casos, eu só diria que odiava, que achava idiota e infantil, que a capa era feia, que todos os leitores eram imbecis. O pior é que praticamente todo mundo queria que eu lesse Harry Potter por algum motivo. Todo mundo achava que por gostar de literatura de fantasia eu ia gostar daquilo. O moleque usava uma varinha, cacete. Tem como ser mais escroto que isso?
Hoje eu continuo não entendendo Harry Potter. Vi três dos filmes e comecei a ler o primeiro livro mais de uma vez. Não gostei, simplesmente não me fisgou. Não é nenhum defeito da série, inclusive a autora parece ter uma narrativa bem fluida pelo pouco que li. Estou bastante interessado em ler o livro para adultos que ela lançou recentemente. Eu até gosto de Books of Magic, que tem tantas similaridades com Harry Potter. Não sei explicar o motivo de não curtir a série. Acho que eu simplesmente não entendo Harry Potter.

Religião

Do alto da minha molequice, eu era o seu ateísta adolescente clássico. Odiava todas as religiões, achava que todas elas não traziam nada de bom, desdenhava de tudo abertamente, generalizava absolutamente tudo. Eu devia ser um porre. Ainda bem que não existia Facebook na época.
Anos depois e passando por meia dúzia de colapsos nervosos, acabei encontrando minha fé. Qual é a minha religião não vem ao caso, a questão é que eu guardo ela pra mim. É minha crença, ela me ajuda quando eu preciso e não é da conta de mais ninguém. A minha falta de crença eu esfregava na cara de todo mundo. Será que não dava pra todo mundo ser um pouco assim? Se você acredita em alguma coisa ou não é problema seu. Tolerância faz bem pra todo mundo e tanto religiosos quanto ateus podiam exercer um pouquinho.

Jornada nas Estrelas


Eu vi muito pouco da série clássica de Star Trek. Antes mesmo de ter visto, por algum motivo, eu já odiava. Acho que deve ter tido alguma coisa a ver com os heróis de Star Trek terem pistolas e os heróis de Star Wars terem espadas. Na minha cabeça de 15 anos, gostar dos dois era um crime e eu preferia sabres de luz (parece que muita gente ainda pensa assim).
Depois de ver os filmes da Nova Geração e o reboot do J.J. Abrams, te digo sem medo - gosto dos filmes de Star Trek. Sim, só dos filmes. Todo o resto que eu tentei ver é tão datado que eu não consigo achar divertido. Diabos, Kirk, vá escalar uma montanha. Não entendo trekkers e acho que nunca vou entender.

Flamengo

Quando eu era muito criança, eu fui flamenguista. Meu pai era flamenguista e a coisa meio que fluiu daí. Eu nem ligava muito pra futebol na época, então não fazia muita diferença. Fui ligando menos e menos para futebol até nem lembrar direito pra qual time eu torcia.
A camisa clássica do Fluminense é linda. Isso não me fez escolher meu time de coração. Foi Nelson Rodrigues. Vi um dos seus famosos discursos sobre o Fluminense em um programa de esportes da vida e antes que eu percebesse, meu coração já era tricolor. Fui me interessando mais e mais por futebol até que a Libertadores de 2008 me transformou num torcedor de verdade. Hoje sou tricolor de corpo e alma e continuarei sendo até morrer.
Obviamente, minha opinião sobre o Flamengo mudou. Se antes eu praticamente não me importava com o time rubro-negro, hoje é a equipe que eu mais adoro odiar. Cada tropeço em um campeonato é um sorriso, cada Magal contratado é uma gargalhada, cada Ronaldinho ou Vagner Love que vão embora é uma piada pronta. Eu torço por dois times - pro Fluminense e pra quem quer que esteja jogando contra o Flamengo. Até hoje eu não entendo torcedores do Flamengo. Pra que torcer pra esse time, quando podem torcer pro Fluminense?

Chá: O meu ódio mais silencioso durante a adolescência foi contra o chá. Minha mãe me dava chá quando eu estava resfriado ou com alguma outra doença e era um saco. Era água suja e quente! Pra mim era um suplício e ainda tenho vagas lembranças de chorar e espernear e discutir para evitar tomar uma xícara daquela bebia infernal (talvez isso tenha sido anterior à adolescência). O pior do meu ódio por chá é que eu não podia compartilhar com ninguém. Sempre tinha um ou outro amiguinho que odiava Harry Potter pra gente rir juntos pensando como éramos infinitamente mais inteligentes que todo o resto por ler [insira-mangá-da-vez] em vez daquilo. Mas chá? Eu tinha pra mim que era um ódio solitário. Deixei guardado comigo por muito tempo.
Só fui começar a dar uma segunda chance pro chá recentemente. Minhas primeiras experiências com iced tea foram péssimas, basicamente por eu não gostar de pêssego e só servirem iced tea de pêssego em tudo quanto é canto. Depois de experimentar um iced tea de limão, curti. Dois minutos de pesquisa depois, descubro que iced tea não é chá, é refrigerante. Pensando que algum dos meus ódios adolescentes era justificado, decidi seguir em frente - até que um dia no trabalho quando eu percebi que tinha água quente e um monte de saquinhos de chá. Prestes a entrar numa dieta, respirei fundo e decidir dar uma nova chance. Acontece que chá de hortelã é uma delícia. Tenho tomado com frequência e é a minha bebida quente favorita. Também não é raro achar iced tea de limão na minha geladeira. Chá foi de longe o mais injustiçado dos meus ódios, por ser uma coisa que eu realmente não entendia. Isso ou minha mãe esquentava a água demais.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Para ver/assistir/jogar


Livros:
Only Revolutions (2006) de Mark Z. Danielewski 
Truancy de Isamu Fukui
1984
Elemental Logic series
(Fire Logic (2002), Earth Logic (2004), Water Logic (2007) Air Logic (ainda não saiu))
 Filmes: 
5 Centimeters Per Second (2007) de Makoto Shinkai (Anime)
Gummo


Anime:
Magical Girl Lyrical Nanoha
Boogiepop Fantom
Baccano
Suzumiya Haruhi

Mangá/Comics:
Kurohime
Lucifer and the Biscuit Hammer
Mouse Guard
Sandman
Chase
(90s)/Manhunter (ambos da  DC)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Morra jovem e salve a si mesmo

A porta se fechou atrás dele com um rangido de madeira velha. A música do andar de baixo, abafada. André sentia nas orelhas, na garganta, a própria pulsação. A mão dela segurava a ponta dos dedos dele. Percebeu que suava. Abriu a boca para falar – o coração parecia que ia lhe saltar garganta a fora – mas desistiu. Os olhos se acostumavam à escuridão. Ela o puxou e antes mesmo dele perceber ela estava envolta em seus braços, lábios tocando pescoços e orelhas, dedos deslizando por costas. Respirações entecortadas, o coração acelerado, o som repetitivo de tecido contra tecido. O cheiro de álcool no hálito dela. Os olhos – ele viu os olhos. “A gente não devia fazer isso”, pensou em dizer. “Deita ali e tira a calça”, também pensou em dizer.

- Você é linda. – acabou dizendo, a voz falhando. Mal conseguia vê-la no escuro.

Ela murmurou alguma coisa no ouvido dele. André não entendeu uma palavra, mas o hálito quente do sussurro acabou com todas as suas dúvidas. Derrubou-a na cama, arrancando a camiseta e jogando longe ao mesmo tempo que tateava o fecho do sutiã.

- ‘peraí, ‘peraí. –ela disse, se afastou um pouco e ele quase achou que ia acabar por ali mesmo. – ‘xa que eu tiro.

Bárbara não era uma menina especialmente bonita. Ela não era feia, mas sim bastante comum. Ela tinha essa certa tendência a acabar sendo ignorada justamente por causa disso. Para compensar a falta de atrativos físicos, Bárbara tomava a iniciativa. E tinha ficado evidente para André como isso era eficaz. Mesmo regulando idade com ele, Bárbara deixou bem claro que já tinha considerável experiência.

Suado e satisfeito, André se vestiu apressadamente assim como Bárbara. Com um último beijo molhado, ela escancarou a porta de madeira – rangendo de novo – e desceu os degraus rapidamente.

Envolto pela música do andar de baixo, André se sentia estranho. Ele esperava que magicamente se sentisse um homem, mas só se sentia um menino. Um menino com medo de que o primo descobrisse o que ele tinha acabado de fazer.

domingo, 25 de setembro de 2011

New 52

Praticamente todo mundo com quem eu falei sobre o reboot da DC já sabe - eu não estava esperando nada. Títulos que eu estava acompanhando (Teen Titans, Superboy, Red Robin, Batman & Robin) seriam resetados. A cronologia ficaria uma bagunça. Personagens seriam abandonados para sempre (Spoiler) ou modificados ao ponto de ficarem irreconhecíveis (Barbara Gordon).
Agora que os títulos estão saindo, eu posso dizer tranquilamente: eu quebrei a cara. Duas vezes.
Pictured: Diana quebrando a minha cara
Wonder Woman #1, por Brian Azarello e Cliff Chiang, é um excelente começo. Antes de mais nada, Azarello nem tenta se enfiar na bagunça que é a cronologia DC ou as origens da personagem título. O foco dele aqui é em sua história - que é a de uma mulher sendo envolvida nas maquinações dos deuses (adaptados ao século XXI) e sendo protegida por Diana. O grande mérito de Azarello aqui é dizer abertamente que ele não se importa com o reboot, ele se importa com a história dele. E só um autor do gabarito de Azarello (100 Bullets) tem moral de fazer uma coisa dessas. A missão do título não é fácil - dar uma cara a um personagem que o grande público nunca conheçou de verdade.
Não dá pra evitar de mencionar como a arte de Chiang é boa e adequada ao estilo de Azarello. É quase uma fantasia mítica hardboiled, por assim dizer. Violência e sensualidade são elementos já nessa primeira edição, mas eles são secundários, casuais - como são para os personagens. Chiang consegue manter a dose certa entre estranhamento e familiaridade com as coisas bizarras acontecendo nessas pouco mais de vinte páginas. E você tem que aplaudir um cara que consegue fazer com que você demore um pouco para perceber que a Mulher Maravilha está sem roupa.

Mas eu não tinha dito que quebrei a cara duas vezes? Sim, foram duas vezes. A primeira foi com a Mulher Maravilha de Azarello, muito melhor do que eu achava que o reboot poderia criar. Assim que aparecer nas bancas aqui, vou saltar em cima dessa série com tudo. A segunda foi com Catwoman e Red Hood and the Outlaws. Eu disse lá em cima que esperava muito pouco do reboot, então não cheguei a ficar aborrecido com JLA. Mas essas duas... conseguiram ficar abaixo do que eu esperava.
O problema aqui vem de homens velhos escrevendo mulheres jovens. Estelar e Mulher-Gato na teoria estão sendo escritas como 'mulheres sexualmente agressivas'. Na prática, o que a gente vê é um pornô softcore pra homens e duas personagens respeitadas sendo jogadas pra escanteio. Ambas Estelar e Mulher-Gato eram escritas como sexualmente agressivas e decididas pré-reboot. Não sei de quem foi a idéia de ir além do impossível nessa questão, mas acaba tirando o crédito da história. Sexo não devia ser o foco de uma revista em quadrinhos de super-heróis - devia ser, no máximo, uma coisa secundária. Mas no caso de Mulher-Gato, a revista é sobre ela transando com o Batman. E isso é ainda mais apelativo do que qualquer coisa que eu esperava.
Me recusei a colocar fotos dessa nova Mulher-Gato aqui. Leiam Wonder Woman #1 e prestigiem bons quadrinhos.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Gris III - Seja você mesmo amanha, mesmo que morra graças a males emocionais

Às vezes me encontro caindo aos pedaços enquanto durmo sozinho num travesseiro de ferro com fronha de algodão. Algumas pessoas conseguem encontrar salvação nas outras, mas tem gente que só encontra dor. Às vezes alguém mata a dor, mas nem isso adianta, você gira no silêncio até finalmente ficar a deriva.
Buquês me deixam animado se voam pelos céus numa tarde de outono para serem agarrados num pátio de igreja. Me deixam desolado quando me lembro de deitá-los ao lado de uma lápide. Escondido de mim mesmo, joelhos queimados, eu oro. Já com todos os passos tomados na estrada errada, me volto e torno ao início. Dessa vez vou me lembrar de manter sua cerveja tão cheia quanto a minha, de me certificar que todos estão se divertindo, de beijar a chuva durante uma tempestade. Se me esforço demais e tudo acaba em pedaços não é nenhuma surpresa.
Mesmo que tenha pago o suficiente, tenha sido afastado ou impedido, no final das contas só duas coisas constituem suas memórias, boas ou ruins - sua vontade e a sorte. Portanto aumentar, apagar, fugir, derrotar não deviam ser só o que importa para você.