sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Reflexo de um julho perdido

Enquanto o avião se afastava, sumindo no horizonte, ele mantinha os olhos fixos na tela de televisão. A mente esvaziada de pensamentos, os dedos golpeando teclas de forma ritmada, vozes digitalizadas ecoando pelo quarto vazio. Vazio. Um único pensamento, uma única palavra, atravessou a forte barreira que ele havia construído concentrando-se nos milhares de pixeis em movimento. Sozinho. Ele se levantou da cama, ignorando o jogo em curso.

- Não é a primeira vez. - ele murmurou para mais ninguém.

Em outro lugar, a bordo de um avião, uma jovem lia um romance de R.A. Salvatore. Ela não demonstrava a menor intenção de olhar para os lados, para a frente e (especialmente) para trás - sua atenção focava-se, única e exclusivamente, na leitura. A literatura de fantasia sempre lhe pareceu tola, fraca, sem valor - nada melhor para passar o tempo em uma viagem como aquelas, nada para lhe ocupar os pensamentos. E ela lia e seguia, sem se importar, sem olhar para trás.

Ele observava o céu da noite. Não é a primeira vez, repetiu para si mesmo mentalmente. Que direito ele tinha de se chatear, que direito ele tinha de se irritar, que direito ele tinha afinal? Nenhum. Fui eu quem fiz isso comigo mesmo. E a culpa pesava. Revendo minhas atitudes, só posso me arrepender.

- Eu sinto sua falta! - gritando para o céu. - E do jeito como tudo costumava ser.

Ela lia. E sorria.

- Uma soda, por favor. - sem olhar para a aeromoça.

- Laetitia! - ele gritou, dedos cravados no batente, sem pensar. - Você me destrói! - Não consigo entender como eu me sinto tão sozinho...

- Nós nunca poderíamos ficar juntos para sempre. - ela disse após um gole de soda, o livro fechado, indicador marcando a página. Quando o livro se abriu ela continuou não olhando para trás mas também não sorriu.

- Eu sei que você pode me ver! - e lágrimas brotando devagar.

Ele correu seus olhos pelo quarto. Livros. Lembranças. Julho parecia muito distante, um sonho, uma brincadeira para todos, exceto para ele. Apenas palavras.

- Como se acontecer não fosse o suficiente... - a voz embargada, murmúrios para mais ninguém.

Ficou quieto, não se sentiu bem, passeou pela cozinha. Lembranças. E agora eu quero te matar como só um melhor amigo pode. Mas a raiva passa.

Um avião, músicas, atenção dispersa. Olhos no agora, nem no passado nem no futuro. E no fundo ela sabia que não lembrava porque não queria. É isso que você chama de tato? Ela se perguntou. É isso que você chama de fuga?. Ela suspirou. Vamos terminar esse pensamento e essa conversa.

E chorando, ele concluiu. Mesmo que o avião caia, ela vai me desapontar. Não vai se queimar nas ferragens nem se afogar no fundo do mar. Laetitia, eu me reservo o direito de te odiar. Ele riu do pensamento idiota. Olhou pela janela mais uma vez.

- Amor. Ódio. E tem você. - e ela olhou para trás pela janela. E sorriu tristemente.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

O dia em que ela parou de tentar (e conseguiu)

Ela parada diante de uma loja de relógios. Quando criança, achava o tic tac constante reconfortante e gostava de observar os diferentes relógios – as torres de mogno, os pequenos circulares pendurados nas paredes, os cucos.

O céu cinzento vomitava minúsculas gotas de chuva fria que atingiam ritimadamente o pequeno guarda-chuva preto que ela segurava em uma mão; a outra estava enfiada na bolsa, segurando alguma coisa com força. Vestia um sobretudo marrom-escuro, um par de botas recém engraxadas, calças de brim e camiseta. A maquiagem aplicada com perfeição milimétrica no rosto tentava disfarçar qualquer imperfeição que tivesse surgido nos últimos anos. Os olhos, pequenos do choro da noite anterior, corriam de um lado para o outro da rua deserta.

E ele apareceu diante dela, saído de lugar nenhum. Cabelo despenteado, a barba por fazer, jeans e camiseta, exatamente como ela se lembrava. Mãos dentro dos bolsos.

- Oi. – ele disse, um meio sorriso se formando.

- Oi. – ela respondeu, num misto de assustada e ansiosa.

Continuaram se olhando. Ela segurando o guarda-chuva e ouvindo o tic tac para se fingir segura. A chuva continuava e ele impassível, mantendo seu eterno meio sorriso. Ela pensando na última vez que o vira sorrir por completo.

- Então. – ele começou, sabendo que ela não o faria. – Você me chamou aqui.

Ela apenas acenou com a cabeça.

- Pra gente ficar junto. – ele concluiu. E ela acenou.

Mais silêncio, mais chuva. E ela apertando alguma coisa dentro da bolsa.

- Então, é assim...? – o meio sorriso dele quase se desfez. – Pensei que... Existem outros jeitos.

- Prefiro assim. – ela quase chorando.

- Conseguiu com seu tio? Ele é militar, não é?

- Ele é. Mas não contei nada. – ela chorando, arruinando a maquiagem.

- Não é que eu não queira. – ele passou a mão pelos cabelos secos. – Tudo que eu quis nesses últimos anos... foi ter você. Ter você comigo. Ter você comigo de novo. Mas, mas assim? Não sei. E as crianças?

- Ficam com a minha mãe. Já está tudo certo. Eu tenho dinheiro guardado. Não vai faltar nada para elas. – os nós dos dedos dela brancos, apertando o guarda-chuva e uma coisa dentro da bolsa.

- Eu senti muito a sua falta. – e ele completou o sorriso.

- Eu sinto muito a sua falta. – e mais lágrimas, borrando a maquiagem.

- Então vou estar te esperando. – um passo para trás.

E um estrondo surdo, um estampido. E cheiro de pólvora. E cheiro de sangue. E a chuva caindo.