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segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Morra jovem e salve a si mesmo

A porta se fechou atrás dele com um rangido de madeira velha. A música do andar de baixo, abafada. André sentia nas orelhas, na garganta, a própria pulsação. A mão dela segurava a ponta dos dedos dele. Percebeu que suava. Abriu a boca para falar – o coração parecia que ia lhe saltar garganta a fora – mas desistiu. Os olhos se acostumavam à escuridão. Ela o puxou e antes mesmo dele perceber ela estava envolta em seus braços, lábios tocando pescoços e orelhas, dedos deslizando por costas. Respirações entecortadas, o coração acelerado, o som repetitivo de tecido contra tecido. O cheiro de álcool no hálito dela. Os olhos – ele viu os olhos. “A gente não devia fazer isso”, pensou em dizer. “Deita ali e tira a calça”, também pensou em dizer.

- Você é linda. – acabou dizendo, a voz falhando. Mal conseguia vê-la no escuro.

Ela murmurou alguma coisa no ouvido dele. André não entendeu uma palavra, mas o hálito quente do sussurro acabou com todas as suas dúvidas. Derrubou-a na cama, arrancando a camiseta e jogando longe ao mesmo tempo que tateava o fecho do sutiã.

- ‘peraí, ‘peraí. –ela disse, se afastou um pouco e ele quase achou que ia acabar por ali mesmo. – ‘xa que eu tiro.

Bárbara não era uma menina especialmente bonita. Ela não era feia, mas sim bastante comum. Ela tinha essa certa tendência a acabar sendo ignorada justamente por causa disso. Para compensar a falta de atrativos físicos, Bárbara tomava a iniciativa. E tinha ficado evidente para André como isso era eficaz. Mesmo regulando idade com ele, Bárbara deixou bem claro que já tinha considerável experiência.

Suado e satisfeito, André se vestiu apressadamente assim como Bárbara. Com um último beijo molhado, ela escancarou a porta de madeira – rangendo de novo – e desceu os degraus rapidamente.

Envolto pela música do andar de baixo, André se sentia estranho. Ele esperava que magicamente se sentisse um homem, mas só se sentia um menino. Um menino com medo de que o primo descobrisse o que ele tinha acabado de fazer.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Gris III - Seja você mesmo amanha, mesmo que morra graças a males emocionais

Às vezes me encontro caindo aos pedaços enquanto durmo sozinho num travesseiro de ferro com fronha de algodão. Algumas pessoas conseguem encontrar salvação nas outras, mas tem gente que só encontra dor. Às vezes alguém mata a dor, mas nem isso adianta, você gira no silêncio até finalmente ficar a deriva.
Buquês me deixam animado se voam pelos céus numa tarde de outono para serem agarrados num pátio de igreja. Me deixam desolado quando me lembro de deitá-los ao lado de uma lápide. Escondido de mim mesmo, joelhos queimados, eu oro. Já com todos os passos tomados na estrada errada, me volto e torno ao início. Dessa vez vou me lembrar de manter sua cerveja tão cheia quanto a minha, de me certificar que todos estão se divertindo, de beijar a chuva durante uma tempestade. Se me esforço demais e tudo acaba em pedaços não é nenhuma surpresa.
Mesmo que tenha pago o suficiente, tenha sido afastado ou impedido, no final das contas só duas coisas constituem suas memórias, boas ou ruins - sua vontade e a sorte. Portanto aumentar, apagar, fugir, derrotar não deviam ser só o que importa para você.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Chroma

Primeiro, ela escolheu se chamar Chrome. Pensou que soava bem, que transmitia bem a idéia que ela queria e exemplificava seus poderes. Essa era metade da importância do nom de guerre de um mutante, não era? Explicar seus poderes antes que precisassem perguntar. Na primeira semana, soube através de um militante dos direitos mutantes que já existia um Chrome, um já falecido capanga de Magneto. Querendo se distanciar de qualquer relação com aquele homem assustador, ela decidiu se chamar Chroma, o que trazia (pelo menos para ela) um certa sensação de empoderamento feminino.

Ela sempre teve dificuldades em decidir o que fazer da vida. Sem muitos sonhos ou grandes paixões, nem mesmo com traumas e dificuldades extremos, ela seguia pela vida na pista do meio, sem grandes excessos. Era uma vida que não era nunca mais nem menos, uma vida monótona e confortável, mais uma pessoa na multidão. Ela não sabia dizer, hoje, se gostava ou não daquela vida que seguia. Só que quando a revelação chegou, as coisas espiralaram fora de controle e não tinham mais volta. E era tudo culpa dela.

Um dia, no bar com os amigos de faculdade, ela serviu todos de cerveja e colocou a garrafa de volta na mesa. Alguns minutos depois, comentaram que a garrafa estava vermelha. Isso levou a meia dúzia de comentários, uns mais alarmados que outro, e outra garrafa veio. Mais tarde, em seu apartamento, ela ouviu um grito vindo do banheiro. Era sua amiga, que passara a noite dormindo no sofá e ao se olhar no espelho, viu que seu cabelo estava azul. Foi quando ela descobriu que era Chroma - possuía a habilidade mutante de mudar a cor das coisas.

Claro, uma mutação tão pequena podia ser ocultada se fosse controlada. Mas vendo na TV todos aqueles homens e mulheres uniformizados, como eles pareciam tão acima dos problemas mundanos que ela enfrentava sonolenta dia-a-dia, ela se decidiu. Não seria só uma mutante, seria uma mutante uniformizada, uma super-heroína.

As boas intenções de Chroma não deram muito certo. Seu poder primeiro ajudou com a confecção do uniforme - era só juntar as pessoas que queria e depois mudar as cores ao seu bel prazer. Após alguns dias rodando pela cidade em seu novo uniforme e recebendo mais atenção masculina do que nunca (ela nunca se achou muito bonita, mas aparentemente colantes e decotes tinham esse efeito), ela encontrou o primeiro crime em que se intrometeu - um assalto a uma farmácia. Felizmente eles não tinha armas. Ela foi empurrada para o lado, tentou perseguir os ladrões, ficou sem fôlego mais rápido que esperava. Não teve a chance de mudar a cor de nada. Mas perseverou em seu objetivo de se tornar um símbolo de alguma coisa através de suas ações e poderes. Ajudou um policial a impedir um estupro, ainda sem mudar a cor de coisa alguma. O policial, apenas um pouco mais velho que ela, recomendou que ela entrasse para a força policial ou procurasse um dos grupos de ajuda mutantes da cidade. Ela não gostou das sugestões e continuou nas suas patrulhas, até interromper um assalto a mão armada. Chroma nunca teve nenhum treinamento de defesa pessoal ou artes marciais, mas dessa vez ela pensou no que fazer. Saltou pela porta, a capa segura firme nas mãos, balançando-a enquanto trocava as cores da mesma com velocidade estonteante e se movia rápido na direção de seu alvo, seu vilão. O show de cores atordoou o homem por tempo suficiente para o soco de Chroma atingi-lo em cheio. Ela tomou a arma dele, eufórica, e apontou para o mesmo para que não se movesse. Nervosa e sem nenhuma prática com armas de fogo, ela atirou sem querer.

Presa por homicídio, com a faculdade interrompida, Chroma não tinha muito mais o que fazer na cadeia a não ser praticar seus poderes de mudança de cor (ela ainda não conseguia mudar as cores de algo que não estivesse tocando, por exemplo) e se manter viva.

Faltando dias para ser liberada, ela não fazia idéia do mundo que encontraria lá fora ou do que faria quando saísse. Ela era só uma menina que mudava cores.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

A curva 4.0

A curva

A música soava com uma frequência rotineira, criando uma sedutora trilha sonora que
vazava suavemente dos alto-falantes. O som de teclados eletrônicos e percussão leve era meu parceiro fiel em nossa jornada através das cortinas de negrume da madrugada. As janelas estavam frias ao toque, evidenciado a temperatura mais baixa do lado de fora, o que me enchia de estranheza. Sentia um frio brutal, invasor, me penetrando a carne e os ossos, gelando meu sangue nas veias. Através das manchas de impressões digitais que pintavam o vidro em sua sujeira, observei atenciosamente um casal se abraçando na esquina e invejei, de dentro do meu pesado casaco fechado, o calor que eles dividiam enquanto se protegiam da chuva, que escorria como uma preguiçosa cascata das marquises para as calçadas.

A música pulsou num timbre mais alto, porém ainda gentil, como o chiado distante de um pote de água fervente. Lancei um olhar rápido para ela, que dirigia, a testa franzida em uma careta permanente. O céu já brilhava fracamente, dando-nos um vago vislumbre da aurora distante. O carro disparava agora por um trecho dolorosamente reto da estrada, sem muito o que se observar pela janela. Ela não tinha movido o volante nem ao menos dois graus nos últimos vinte minutos. Eu não me lembrava a última vez que a havia ouvido falar desde que entramos no carro.

Um trem havia saído da cidade uma hora atrás, mas não esperara por mim. Enquanto aguardava, sentado em minha única mala, um cigarro pendurado nos lábios secos, percebi finalmente que outra época havia chegado, mas não a que eu esperava. Eu esperava a época dos recomeços, aguardava ansiosamente a aurora da minha nova era. Mas a época que chegava era simplesmente aquela dos resfriados e sobretudos, então abri minha mala e vesti meu casaco. Ao abrir a mala, vi uma foto de nós dois. Imediatamente, resquícios das memórias do verão inundaram minha mente e reconheci que ainda eram os dias que eu guardava mais carinhosamente nos confins do coração. Fomos tão perfeitos e tão felizes naquele verão e me sentia reconfortado ao pensar que se lembrariam de nossos sorrisos, ainda que fosse apenas por ser só o que conheceram. No começo, ela era como uma flor para mim, brotando de uma terra morte que mal tinha ervas daninhas, se dobrando na minha direção. Me agarrei ao caule dessa flor e puxei até arrancar suas raízes do chão, pensando que assim encontraria o que tanto procurava. Em minhas mãos, as pétalas murcharam e escureceram, então apressadamente a coloquei de volta na terra para que ainda pudesse viver e fui embora. Onde teria errado? De quem era a culpa? Saí da estação na mesma hora, a foto no bolso, com a certeza de ter errado ao ir embora. Ao sentir a chuva fria da tempestade que se aproximava, vi o carro dela estacionado.

A música parou, o que me tirou das lembranças, me jogando de volta para a atmosfera gelada daquele carro. Sem o som da música, o carro parecia parado também, a paisagem tão repetitiva que era estática. Considerei que se estávamos quietos na viagem era porque queríamos chegar em casa. Sem desviar o olhar, com um gesto quase mecânico, ela apontou para o botão de reprodução suavemente com a ponta de sua unha manicurada. Eu a impedi, segurando sua mão, que ela rapidamente levou de volta para o volante. Eu finalmente estava sendo resoluto... poderia ela me pedir para mudar?

No final do verão, passamos uma tarde surfando. Eu dividi o pouco conhecimento que tinha com ela e depois assistimos o sol se pondo, a cabeça dela apoiada no meu ombro carinhosamente. O céu deixava de ser um azul tão claro, se tingindo de laranja e vermelho, escurecendo de cima para baixo. O sol distante parecia uma gota de sangue sumindo num copo d'água. Me surpreendi ao perceber que ela estava falando. "Desculpe", eu disse sem desviar o olhar. "Eu não ouvi o que você estava falando. Não ouvi o que você disse antes também." Quando nossa primeira briga começou logo depois, eu me perguntava se tínhamos chegado àquele ponto antes e se chegaríamos nele de novo. Eu não sabia mais o quanto devia esperar dela.

"Por que você está fazendo isso?", ela disparou, finalmente falando, sem esperar uma resposta. Sua voz penetrou o ar viciado como um bisturi fazendo uma incisão, tão inesperadamente afiado que fez meu coração saltar. Dessa vez, ela tinha minha atenção incondicional.
"Eu não estou fazendo nada", eu disse, sem um átimo de crença no que dizia, enquanto ela tocava nervosamente o botão de reprodução. "Isso é o que é melhor. Para mim, para você, para nós." Ou talvez apenas para mim, pensei, enquanto uma lágrima se formava no canto de seu olho esquerdo. Ainda chovia; não uma torrente mas uma garoa fina, triste e gelada que parecia seguir o ritmo sonolento que pingava dos alto-falantes. Eu não te amo mais, era tudo o que eu queria dizer. O frio me abraçava com o carinho de um falso amigo e a aurora se esticava preguiçosa no horizonte, provocando com a promessa de um amanhã melhor.

Ela olhou para baixo e fechou seus olhos por um pouco mais que um instante, suas mãos delicadas se fechando com força no volante. Ela se voltou para mim rapidamente;
se olhares pudessem matar, eu teria sido fulminado ali mesmo. Súbito, a música jorrou dos alto-falantes, pulsando forte, raivosa. Então ela estava chorando, então ela estava gritando, então eu estava gritando. Nos perdemos na cadência da canção, duas poças crescentes na tempestade que se formava dentro do carro enquanto do lado de fora parava de chover. Fazíamos chover confissões e insultos, sem respostas ou soluções... e nós nem ao menos sabíamos as perguntas.

Nossas vozes entrecortadas se tornaram parte da música. O carro dardejava pela noite. Enquanto nossas vozes diminuíam, a cadência novamente dominou o ar. Adiante, uma curva se aproximava. Ela não fez menção de desacelerar.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Apesar de toda sua raiva, ainda era um rato em uma gaiola

André ajeitou as cobertas para se sentir mais aquecido. Era mais uma noite fria de julho, mais um lembrete silencioso da solidão na qual ele estava imerso. O jovem rapaz sentia o corpo e a mente cansados, ansiava pelo repouso reconfortante do sono, mas pensamentos diversos cruzavam-lhe a consciência, impedindo-o de dormir.
A mente cansada de André, após a costumeira maratona que era sua vida de estudante de colégio integral, percorria cuidadosamente os eventos nada normais da última semana, revisando-os e tentando tirar algum sentido dos mesmos.
Chateado com sua incapacidade de dormir, levantou-se, derrubando as cobertas no chão. O frio o abraçou como uma amante falsa e mesquinha; uma sensação que o rapaz ainda não conhecia, mas que logo figuraria entre suas lembranças mais detestadas.
O corpo todo doía. Sem dúvida, os eventos recentes haviam exigido dele mais do que estava acostumado a fazer. Não que ele fosse completamente fora de forma; mesmo consumindo uma quantidade assustadora de comida pouco saudável, André contava com um metabolismo acelerado próprio da adolescência e exercícios regulares na forma de natação e aulas de judô. Nada disso o havia preparado para uma maratona de fuga, correndo e se escondendo por mais de seis horas. Ele sentia que seu corpo devia doer mais devido aos golpes que havia recebido, mas estranhamente até as marcas roxas da pele sumiram em pouco tempo. De certa forma isso preocupava o rapaz.
O que mais o preocupava, porém, é que independente da bizarrice de seus últimos dias, o que mais o incomodava e o que realmente o impedia de dormir era a mudança no comportamento de Vanessa. Em um dia estavam tão próximos, no outro tão distantes. O que podia estar acontecendo para aquela menina que ele sabia ser tão solitária subitamente se afastar de quem ela mesma dizia ser seu único amigo?
Então, alguma coisa bateu na janela de André. Fogo queimou nos seus olhos e no seu sangue. Seu coração se acelerou. E uma parte do que era ele, pequena mas significativa, morreu naquele momento.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Epílogo

Parado diante da fachada recém-pintada da padaria, André tentava impedir que sua mente fosse inundada de pensamentos, sem muito sucesso. Os últimos anos haviam redefinido sua vida, alterado seus conceito e ele quase não conseguia se reconhecer, de quando em vez. Era tão estranho assim esperar que ele se lembrasse das coisas como eram, que o encontraria sentado diante do balcão como se não houvessem passado anos e sim dias? André se sentia tolo, inadequado, apertado dentro de suas roupas escuras. Sentiu um pouco de medo.

Achava tolice depois de tudo que já tinha se passado com ele, mas não conseguia evitar. Suspirou e entrou na antiga padaria, tão conhecida das manhãs de sábado. Ele esperava que o lugar fosse parecer diferente, distorcido - como ele próprio. A padaria, recém-pintada, com novos funcionários uniformizados, ainda parecia o mesmo lugar, de alguma forma. O mesmo cheiro de pão novo, a mesma rachadura circulando a grande lâmpada central.

Daniel estava sentado diante do balcão, com duas garrafas vazias de Coca-Cola diante dele e uma em suas mãos. Ele saudou André com a garrafa e o mais novo se sentou no banco ao lado.

- Você não mudou nada. - disse André ao se sentar, pesar de Daniel ter abandonado o cavanhaque e usar o cabelo um pouco mais curto. Sua aura continuava a mesma e André se acostumara a ver as pessoas assim.

- Não posso dizer o mesmo de você. - respondeu o ex-vocalista dos Ratos.

Era verdade. André crescera, como era de se esperar - regulava altura com o primo, agora. Seus olhos estavam mais escuros, sua voz mais grave, seus movimentos mais econômicos, sua postura mais alerta, sua pele mais queimada do sol. Vestido em uma calça de brim preta e uma camiseta cinza, parecia outra pessoa. Ele mesmo pensava concordava com o comentário, fazendo raciocínio similar quando se lembrava das cicatrizes novas - físicas e emocionais.

Um silêncio desconfortável se instalou. André mantia um sorriso bobo de fã diante do primo que - percebia agora - ainda era seu ídolo. Daniel bebia a Coca-Cola em goles pequenos, sem dar muita atenção ao resto do mundo.

- Então, - começou André, a voz saindo errada. - o que tem feito?

- O mesmo de sempre. Você?

Daniel mentia, embora sem saber. Os Ratos haviam se separado, ele não namorava mais Melissa, não trabalhava mais na loja de discos, havia vendido o carro. Para ele, porém, a vida continuava igual. Nada lhe parecia ter mudado. A falta desse conhecimento causou em André forte inveja. Ele sentia falta dos velhos tempos, da tranquilidade e - por que não? - inocência de sua juventude. Sentiu vontade de contar ao primo tudo que havia feito nos últimos anos, mas sabia que não devia. Escolheu contar parte da verdade.

- Faço uma tradução aqui ou ali. De vez em quando fico de intérprete. Tenho viajado bastante. Freelance, sempre.

- Que foda, cara. - Daniel disse, faltando ênfase nas palavras. - Muito foda mesmo. Tá curtindo?

- É... às vezes. Sei lá. - Dúvida. - Sinto... sinto falta dos velhos tempos.

- Você cresceu, cara. Você cresceu. É só isso. - Daniel deu um tapa camarada no ombro do primo.

- Mas sabe... às vezes eu não me reconheço. As coisas que eu faço, que eu tive que fazer... eu não me sinto mais a mesma pessoa. Me olho no espelho e penso... 'quem é esse cara?', sabe?

- Não, cara... não sei não. Mas se liga. Tu passou dessa fase, tu cresceu mesmo. Evoluiu, sei lá. Não tem que se sentir esquisito, porra. - ele ia acender um cigarro, mas desistiu.

- Se isso é evolução, Darwin é um babaca.

Riram os dois. Daniel riu de verdade. André riu por hábito.

- E a Melissa? - perguntou André.

- Se mandou. - Daniel deu de ombros. - Se mandou. Faz uns meses já... um ano talvez. Coisa assim. - Diante dos olhos arregalados do primo, adicionou. - Essas coisas acontecem. Você vai ver.

André sorriu, duvidando entrar em um relacionamento tão cedo.

- Você trouxe o que eu pedi? - o primo mais novo mudou de assunto rapidamente.

- Trouxe. - Daniel tirou uma foto do bolso e entregou para o primo. - Por que isso é tão importante?

André olhou a foto velha de um ensaio dos Ratos. Todos os velhos amigos enfiados no estúdio bolorento, cabelos grandes desgrenhados, camisetas pretas.

- É importante. Pode crer, é importante.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Gris II

- Se insanidade leva ao caos e então à solidão, se medo leva à fúria e então ao Lado Negro... então tristeza leva à apatia e daí para a morte. - ela sussurrou roucamente por entre lábios secos disfarçados pelo batom preto.
Um suspiro doeu-lhe o pulmão, mas não a impediu de tragar novamente. Jogou as cinzas no chão com o desleixo de quem não quer mais se importar, sujando de cinza o piso de tacos.
Uma mancha de cor indefinida surgia no teto, denunciando uma infiltração. Ela não se permitiu chorar. Queria dizer que já tinha secado todas as suas lágrimas, mas seria uma mentira. Ela ainda tinha muito o que chorar, só não queria fazê-lo agora.
- Preciso continuar no estágio da tristeza.
Antes de sair, ela lançou um olhar para a convidativa garrafa de tequila em cima da mesa. Parou no batente da porta, seus olhos se encheram de lágrimas.
Não! Ela repetiu para si mesma no silêncio da própria mente, a mão manicurada estrangulando a maçaneta. Os lábios secos, cobertos de batom preto, franzidos.
Ela bateu a porta ao sair e correu pelas escadas, coração pulando no peito, garganta seca, saltou dois degraus, em movimento no mundo parado, colorida no mundo em preto e branco.
- Posso até voltar para casa cinza. - limpou as lágrimas. - Mas nunca sair.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Para onde vão?

Era uma grande montanha, de encostas traiçoeiras e escorregadias, uma cicatriz no céu azul. Ele a escalou e depois atravessou um rio a nado, a mochila lhe pesando nas costas o tempo todo.
Comia peixes que catava pelo caminho e frutas - quando as encontrava.
Enfim chegou sujo e cansado ao seu destino, um templo escondidos entre pedras enormes. Estava sujo, cansado e faminto. Não por comida - a essa fome já havia se acostumado faz tempo. Tinha fome de respostas.
Uma vez no templo, foi recebido por monges trajando robes simples e cabeças raspadas. Testaram sua coragem em uma sala forrada de brasas, sua sabedoria com uma série de enigmas e sua ambição com uma única pergunta.
Finalmente, ele foi levado à presença da Sábia.
- Para onde vão os corações partidos?
- Eu não sei. - ela respondeu, enfiada em diversas camadas de pano vermelho. - Mas sinto falta deles, de alguma forma.
- Eles podem encontrar seu caminho pra casa?
- Eles nunca foram embora.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Inércia

Todas as tardes nubladas de outono carregam o cinza no sol, no vento, nas nuvens e nas pessoas. O sol cinzento do outono nublado passava preguiçosamente pela grossa camada de poeira encrustada no vidro da janela velha. A madeira, descascada, devorada por produtos de limpeza e cupins, tingia de ruína o cinza de quem olhava para dentro ou para fora.
Chovia. Chovia fraco e chovia preguiçoso, como uma goteira mal fechada que pinga a madrugada inteira. Mais pingava que chovia. As gotas, de lentas que eram, pouco faziam para tirar a poeira da janela.
Douglas observava, uma lata quase vazia de chá gelado na mão, apoiado ao batente. Costumava ser um grande admirador do outono. Apreciava imensamente os dias de sol, mornos como abraço de amigo, entrecortados de brisas refrescantes. Mantinha também um carinho especial pelos dias nublados de chuva fina e frio que dispensava agasalhos.
"Hoje não é um dia desses", pensou um desanimado Douglas. "Esse não é o cinza do meu outono. É tímido demais."
Enquanto via por sua moldura arruinada as pessoas se arrastando pela vida lá fora, Douglas se perguntava o quão distante estava daquilo. Não se arrastava, também, pela vida? Não permanecia, ele próprio, num estado de repouso até que um ou outro evento o arrancasse do mesmo?
- Talvez seja mesmo hora de agir. - disse para ninguém em particular.
O rapaz de cabelos castanhos e olhos negros, do alto de suas quase duas décadas, tinha muito do que se arrepender. De alguma forma, apesar de sujeito à mesma inércia que condenava nos transeuntes logo abaixo, Douglas não tinha dúvidas de que vivera plenamente até ali. Ele havia errado, acertado, sofrido, sorrido, ferido e sangrado. Coincidências, destino talvez - mas nunca escolhas conscientes.
"Mais isto que aquilo.", e tomou em mãos o telefone. Decidiu desafiar a inércia da vida, uma vez que fosse, por conta própria.
- Alô, Vanessa? É o Douglas...

sábado, 12 de dezembro de 2009

Gris

A cada ano as estações pareciam perder mais da sua identidade. O inverno era quente e o dia mais frio do ano era registrado no verão. Era alto outono e finalmente parecia outono. Sua estação favorita.
Ela tamborilou nervosamente os dedos na janela, soltando a tinta branca e gasta da madeira igualmente velha e gasta. Chovia fino, um sol tímido aquecia de leve mas o vento gelado convidava um agasalho. Nos lábios secos ela carregava um sorriso, divagando.
Calçou um par de botas de camurça, cano curto. Meia-calça, camiseta listrada, saia de pregas. Tons de preto, branco e cinza. Uma roupa de outono, pelo menos para ela.
"Hoje volto para casa mais cinza ainda."
E boina. E chave. E foi.

Unrelated note: Com esse post, Crepúsculo Esmeralda alcança a marca de 45 posts em 2009, exatamente a soma do total de posts em 2007 e 2008.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Ela usava um All-Star

Ela era uma mulher que mesmo de All-Star parecia que usava salto alto. Vanessa tinha presença. Era uma mulher, não era só uma menina e isso tinha muito pouco a ver com idade e experiência sexual. Eu disse que ela tinha presença? Não; ela era a definição de presença.
Claro que ela era bonita. Não era linda, maravilhosa; não, nada disso. Ela era bonita nos detalhes. Vanessa tinha cabelo castanho-claro, olhos cor-de-mel e um corpo compacto. Do alto de seus dezesseis anos, era mais alta que a maior parte dos meninos com quem convivia, tinha uma voz poderosa e um olhar de leoa. O tipo de pessoa que quando fala, faz todo mundo inconscientemente calar a boca. O sorriso de Vanessa não era barato nem banal e por isso mesmo era lindo.
Ela tinha atitude. Dizia o que pensava, lutava pelo que queria, não fugia de conflito. De algum jeito, acho que ela até gostava de conflito, gostava de um desafio. Ela era quieta, mas carismática. Não se esforçava para fazer amizades, para ser sociável, mas aqueles que se aproximavam dela de uma forma ou de outra acabavam enfeitiçados pelo carisma violento de seus olhos cor-de-mel e sorriso raro.
Vanessa era o tipo de mulher que todos desejavam, ainda que secretamente. Talvez por isso ela fosse tão solitária. Vanessa tinha presença, Vanessa tinha atitude, Vanessa tinha um raro sorriso cativante e Vanessa inspirava cautela.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Tinha esse cara

Então, a verdade é que tinha esse cara. O nome dele era André e ele era um garoto bem comum. Classe média decadente, pai publicitário separado da mãe psicóloga, dizia que era branco mas na Europa passava fácil por preto, dezesseis anos de cabelo preto caindo descuidado pelos ombros, estaturazinha mediana, All Star mais gasto do que precisava no pé, camisetas geralmente pretas. André era esse cara.
O garoto crescia estudando em uma dessas escolas públicas tidas como de elite. Sabe, aquelas das quais todo pai enche a boca pra dizer 'meu filho estuda lá'. Aquelas mesmas, aquelas que definem a 'elite intelectual' da cidade. E o nosso André, esse garoto bem comum de classe média decadente, estudava em uma dessas escolas. Não é como se ele fosse um gênio nem nada, André só não teve escolha - a mãe disse 'ou passa ou vai pro município'. Não tem nada mais decadente pra uma criança de classe média decadente que estudar no município. Daí, André se lascou de estudar e passou pra tal escola de elite.
A gente encontra o André por aí, uns cinco anos e meio (tire ou ponha alguns dias) depois de entrar no colégio. E eu vou te contar, rapaz... a vidinha do André estava bem mais ou menos...

sábado, 3 de outubro de 2009

O homem que não tinha nada

A primeira vez que o vi foi no caminho para o trabalho. Um senhor maltrapilho, aparentando seus cinquenta anos. Talvez fosse mais novo - a sujeira e a tristeza envelhecem as pessoas e eu nunca tinha visto alguém tão sujo e triste quanto aquele senhor. Ele estava sentado em um dos bancos verdes desbotados da praça, olhos fechados, cabelos desgrenhados, segurando com enorme carinho e cuidado um buquê de rosas mortas.
Durante semanas eu passava diariamente pela praça e, mais frequentemente que não, via aquele senhor, triste e sujo como eu jamais havia visto. Ele permanecia sentado no mesmo banco verde desbotado, vestindo os mesmos trapos, segurando o mesmo buquê de rosas mortas. Com o tempo, me perguntei como ele fazia para comer, se ele dormia naquele banco. Ele se tornava uma figura cada vez mais familiar e eu tinha vontade de oferecer alguma ajuda, de conversar, de acenar. A tristeza dele, tão flagrante e tão sincera, não me incomodava nem causava pena - servia de lembrança da minha própria angústia e de como ela era pequena comparada com o senhor do buquê de rosas mortas.
E um dia ele não estava lá. Achei estranho, mas acontecia de tempos em tempos - acreditava que era nesses momentos que ele se alimentava. No dia seguinte, ele não estava em seu banco novamente. E no dia seguinte também. Depois de uma semana achei que ele nunca mais voltaria e acabei me esquecendo daquele senhor e de seu buquê de rosas mortas.
Meses depois, passava pela praça numa tarde triste. Chovia fino, estava frio e a praça estava vazia exceto pelo senhor que novamente se sentava naquele banco, com apenas uma rosa morta nas mãos. Finalmente decidi que precisava conversar com ele.
Tentei falar, acenar, cutucar. Só o que ele fazia era segurar a rosa, olhar para o vazio ou olhar para aquele pedaço de planta já morta faz muito tempo como se fosse a coisa mais linda do mundo. Foi uma senhora rechonchuda quem me explicou.
- Ele era apaixonado por uma moça. Era um amor bonito de se ver. Eles se gostavam muito e ele fazia tudo por ela.
"E como ele ficou assim?" eu quis perguntar mas ela já sabia o que eu queria saber.
- Ele vivia por causa dela, no final. Amava demais. Deixou amigos, deixou família, deixou a moral, deixou o orgulho. E então ela não o quis mais. Por que ele não tinha nada, só o amor por ela. E o amor sozinho não dura muito. Ele apodrece e morre.
Quando a chuva ficou mais forte, não sobrou muita coisa da frágil rosa que o triste homem sentado no banco verde desbotado segurava.
No dia seguinte, ele não estava mais na praça e eu nunca mais o vi.

domingo, 31 de maio de 2009

A curva versão 3.0

Mexi de novo e continuo não estando satisfeito com o resultado.

A curva

A música soava com uma freqüência rotineira, criando uma sedutora trilha sonora que dos alto-falantes vazava suavemente. O som de teclados eletrôncios e percussão leve seguia conosco em nossa jornada através das cortinas do negrume da madrugada. As janelas estavam frias ao toque, evidenciado a temperatura mais baixa do lado de fora, mas eu me negava a crer que o clima pudesse ser mais frio. Manchas de sal e impressões digitais pintavam o vidro em sua sujeira e nas ruas a chuva escorria como uma preguiçosa cascata das calçadas. Um casal se abraçava na esquina, dividindo entre eles muito mais calor do que eu tinha em meu assento estofado e casaco fechado.

A música pulsou num timbre mais alto, porém ainda gentil, como o chiado distante de um pote de água fervente. O céu já brilhava fracamente, dando-nos um vago vislumbre da aurora distante. Pensei despreocupadamente que se um dia aprendesse a voar, nunca colocaria meus pés no chão novamente. O carro disparava por um trecho dolorosamente reto da estrada e ela não tinha movido o volante nem ao menos dois graus nos últimos vinte minutos, mas não falava faz muito mais tempo.

Percebi finalmente que outra época havia chegado; aquela dos resfriados e sobretudos; considerei que se estávamos quietos na viagem era porque queríamos chegar em casa. Resquícios das memórias do verão inundaram minha mente, os dias que eu guardava carinhosamente nos confins do coração. Como nós fomos; tão perfeitos e tão felizes, nas memórias do verão tão distante do medo e dos ciúmes. Agora, entre cada sorriso há uma lágrima nos olhos. O tempo era tão tangível sob a auroria fria que me fez lembrar de prometer nunca deixar o tempo escapar. Nossos sonhos pareciam tão distantes. Um trem havia saído da cidade uma hora atrás; mas não esperara por mim... ela foi me buscar.

A música parou e por um instante o carro parecia parado também, a paisagem tão repetitiva que era estática. Sem desviar o olhar, com um gesto quase mecânico, ela tocou o botão de reprodução suavemente com a ponta de sua unha manicurada. Eu finalmente estava sendo resoluto... poderia ela me pedir para mudar?

"Por que você está fazendo isso?", ela finalmente, disse sem esperar uma resposta. Sua voz penetrou o ar viciado como um espião em filmes de criança, tão inesperadamente que fez meu coração saltar.
"Eu não estou fazendo nada", eu disse, sem um átimo de crença no que dizia. "Isso é o que é melhor. Para mim, para você, para nós." Ou talvez apenas para mim, pensei, enquanto uma lágrima se formava no canto de seu olho esquerdo. Ainda chovia; não uma torrente mas uma garoa fina, triste e gelada que parecia seguir o ritmo sonolento que pingava dos alto-falantes. Eu não te amo mais, era tudo o que eu queria dizer. Nunca havia sentido tanto frio. E ironicamente sob o véu da aurora seguimos.

Súbito, a música jorrou dos alto-falantes e nos perdemos em sua cadência, duas poças crescentes na tempestade que se formava. Ela olhou para baixo e fechou seus olhos por um pouco mais que um instante, suas mãos delicadas se fechando com força no volante. Então ela estava chorando. Então ela estava gritando. Então eu estava gritando. A culpa e a apatia faziam chover confissões, sem respostas ou soluções... e nós nem ao menos sabíamos as perguntas.

Nossas vozes entrecortadas se tornaram parte da música. O carro dardejava pela noite. Enquanto nossas vozes diminuíam, a cadência novamente dominou o ar. Adiante, uma curva se aproximava. Ela não fez menção de desacelerar.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Gelo

Estava sentado em um banco solto de ônibus. Chovia fino, em diagonal, molhando meu braço pendurado para fora na janela. Uma brisa, não exatamente fria, apenas refrescante, entrava pela fresta aberta carregando algumas gotas que molhavam meu rosto.

Me levantei para saltar e me atingiu como um soco. Um forte sentimento de estranheza. Olhei para os lados, aflição subindo pela minha garganta. Nada. Luzes frias, assentos vazios, pessoas desligadas como se fossem aparelhos esquecidos em um canto de oficina. Gelo nas veias. Fiz o sinal, saltei do ônibus, mais gelado que a água da chuva ou a brisa refrescante.

A rua deserta, uma luz falhando, carros atravessando cautelosamente o cruzamento. Gelo. Tremia e olhava para trás. Caminhava a passos largos. Alguma coisa estava errada e eu sabia disso. Ofegava.

Enfiei a mão no bolso... tinha perdido minha chave.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Pavor (repostagem)

Existem algumas coisas das quais eu tenho pavor. Medo eu tenho de várias coisas, mas pavor... o pavor, real e absoluto, que gela o sangue (água ou fogo?) das suas veias, deixa seu corpo tremendo, a garganta seca, os pulmões parecendo vazios mesmo quando cheios de ar... pavor só de algumas coisas. Pavor do preto e do vermelho. Da sombra nos cantos, sempre fugindo à visão, no âmago do ser, do vazio maior que o todo que não se pode explicar, da apatia sombria, escura e fria que se espalha feito doença, uma praga interior, um câncer transparente, uma tristeza viscosa que se expande, uma aranha esguia e esperta prendendo minha alma numa teia. Do rubro flamejante, voraz, que engole até mesmo o azul, o verde e o branco, um carmesim selvagem, descontrolado... meu demônio escarlate, mantido preso em uma jaula cujas trancas teimam em falhar, cujas barras eventualmente vão se dobrar.

Pavor? Pavor eu só tenho de mim mesmo.

Desengano da vista

Foi ao médico logo cedo. Era uma consulta de rotina, ele bem sabia, coisa comum para quem se preparava para uma promoção na empresa em que trabalhava. Se lembrava claramente da secretária lhe avisando: "Há um exame médico marcado para o senhor". Um sorriso se desenhava involuntariamente em seus lábios, da mesma forma que quando recebera a notícia, sempre que a lembrança atravessava sua mente.

"Pode entrar, senhor."

A secretária do oftamologista era linda. Esguia, cabelos castanhos cuidadosamente presos em um coque, nenhum fio fora de lugar, óculos quadrados de aro grosso, traços finos e delicados, um certo ar europeu que o forçava a observá-la com atenção. O terno branco era elegante, vestia bem a jovem moça. Ela tinha, o que, uns 22 anos? Jovem, sim, não tão mais jovem que ele (mal havia passado dos trinta, gostava de lembrar). O paletó lhe parecia um pouco decotado demais, mas talvez fosse sua imaginação. Seus olhos por vezes o enganavam. Via um cachorro e pensava ser bem maior do que devia, via um buraco e achava ser mais fundo. Agora via um decote mais ousado do que realmente era.

"Não que eu esteja reclamando", murmurou para si mesmo enquanto finalmente entrou no consultório.

O médico o olhou por detrás da mesa, se levantou e apertou sua mão efusivamente, balançando-a com vigor. Era um homem pequeno, um pouco careca, barrigudo, mas um médico muito respeitado.

- Pode sentar. - disse o doutor, examinando os papéis que o paciente entregara. - Oh, sim, seus exames. Agora é só pegar a promoção, hein?

Ele apenas sorriu. O que mais podia dizer? Era a mais simples verdade.

O médico, porém, leu e releu os exames. O paciente começou a ficar preocupado. O que estava acontecendo?

- Doutor...? - perguntou, hesitante.

- É... é muito difícil para mim dizer isto. - o médico esfregou os olhos, suspirou, deu um tapa estalado na própria perna. - O senhor está cego.

Piscou. Olhou para o médico, prendendo seu olhar, envisando o fundo dos olhos negros do profissional da saúde. Olhou para as próprias mãos, as abriu e fechou. Leu a placa de PhD do doutor na parede.

- Doutor, minha visão está perfeita. - concluiu.

- Você deve procurar uma forma de aprender braile, comprar um cachorro. Um labrador. - suspirou. - Desculpe, devia ter percebido enquanto era tempo. Cego e sem cura. Mil perdões.

Lágrimas silenciosas escorriam pelo rosto do médico. E o paciente as via claramente. Sentindo-se em um ambiente surreal, feérico, ele se levantou bruscamente e saiu.

"Cego", resmungou sozinho. Que médico idiota.

Olhou para os dois lados, a rua completamente vazia, como se estivesse no Centro da cidade em uma manhã de domingo. Caminhou em segurança para atravessá-la e chegar a seu carro.
Foi quando um ônibus o atingiu em cheio. A última coisa que pensou foi "Médico filho da puta".

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Reflexo de um julho perdido

Enquanto o avião se afastava, sumindo no horizonte, ele mantinha os olhos fixos na tela de televisão. A mente esvaziada de pensamentos, os dedos golpeando teclas de forma ritmada, vozes digitalizadas ecoando pelo quarto vazio. Vazio. Um único pensamento, uma única palavra, atravessou a forte barreira que ele havia construído concentrando-se nos milhares de pixeis em movimento. Sozinho. Ele se levantou da cama, ignorando o jogo em curso.

- Não é a primeira vez. - ele murmurou para mais ninguém.

Em outro lugar, a bordo de um avião, uma jovem lia um romance de R.A. Salvatore. Ela não demonstrava a menor intenção de olhar para os lados, para a frente e (especialmente) para trás - sua atenção focava-se, única e exclusivamente, na leitura. A literatura de fantasia sempre lhe pareceu tola, fraca, sem valor - nada melhor para passar o tempo em uma viagem como aquelas, nada para lhe ocupar os pensamentos. E ela lia e seguia, sem se importar, sem olhar para trás.

Ele observava o céu da noite. Não é a primeira vez, repetiu para si mesmo mentalmente. Que direito ele tinha de se chatear, que direito ele tinha de se irritar, que direito ele tinha afinal? Nenhum. Fui eu quem fiz isso comigo mesmo. E a culpa pesava. Revendo minhas atitudes, só posso me arrepender.

- Eu sinto sua falta! - gritando para o céu. - E do jeito como tudo costumava ser.

Ela lia. E sorria.

- Uma soda, por favor. - sem olhar para a aeromoça.

- Laetitia! - ele gritou, dedos cravados no batente, sem pensar. - Você me destrói! - Não consigo entender como eu me sinto tão sozinho...

- Nós nunca poderíamos ficar juntos para sempre. - ela disse após um gole de soda, o livro fechado, indicador marcando a página. Quando o livro se abriu ela continuou não olhando para trás mas também não sorriu.

- Eu sei que você pode me ver! - e lágrimas brotando devagar.

Ele correu seus olhos pelo quarto. Livros. Lembranças. Julho parecia muito distante, um sonho, uma brincadeira para todos, exceto para ele. Apenas palavras.

- Como se acontecer não fosse o suficiente... - a voz embargada, murmúrios para mais ninguém.

Ficou quieto, não se sentiu bem, passeou pela cozinha. Lembranças. E agora eu quero te matar como só um melhor amigo pode. Mas a raiva passa.

Um avião, músicas, atenção dispersa. Olhos no agora, nem no passado nem no futuro. E no fundo ela sabia que não lembrava porque não queria. É isso que você chama de tato? Ela se perguntou. É isso que você chama de fuga?. Ela suspirou. Vamos terminar esse pensamento e essa conversa.

E chorando, ele concluiu. Mesmo que o avião caia, ela vai me desapontar. Não vai se queimar nas ferragens nem se afogar no fundo do mar. Laetitia, eu me reservo o direito de te odiar. Ele riu do pensamento idiota. Olhou pela janela mais uma vez.

- Amor. Ódio. E tem você. - e ela olhou para trás pela janela. E sorriu tristemente.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

O dia em que ela parou de tentar (e conseguiu)

Ela parada diante de uma loja de relógios. Quando criança, achava o tic tac constante reconfortante e gostava de observar os diferentes relógios – as torres de mogno, os pequenos circulares pendurados nas paredes, os cucos.

O céu cinzento vomitava minúsculas gotas de chuva fria que atingiam ritimadamente o pequeno guarda-chuva preto que ela segurava em uma mão; a outra estava enfiada na bolsa, segurando alguma coisa com força. Vestia um sobretudo marrom-escuro, um par de botas recém engraxadas, calças de brim e camiseta. A maquiagem aplicada com perfeição milimétrica no rosto tentava disfarçar qualquer imperfeição que tivesse surgido nos últimos anos. Os olhos, pequenos do choro da noite anterior, corriam de um lado para o outro da rua deserta.

E ele apareceu diante dela, saído de lugar nenhum. Cabelo despenteado, a barba por fazer, jeans e camiseta, exatamente como ela se lembrava. Mãos dentro dos bolsos.

- Oi. – ele disse, um meio sorriso se formando.

- Oi. – ela respondeu, num misto de assustada e ansiosa.

Continuaram se olhando. Ela segurando o guarda-chuva e ouvindo o tic tac para se fingir segura. A chuva continuava e ele impassível, mantendo seu eterno meio sorriso. Ela pensando na última vez que o vira sorrir por completo.

- Então. – ele começou, sabendo que ela não o faria. – Você me chamou aqui.

Ela apenas acenou com a cabeça.

- Pra gente ficar junto. – ele concluiu. E ela acenou.

Mais silêncio, mais chuva. E ela apertando alguma coisa dentro da bolsa.

- Então, é assim...? – o meio sorriso dele quase se desfez. – Pensei que... Existem outros jeitos.

- Prefiro assim. – ela quase chorando.

- Conseguiu com seu tio? Ele é militar, não é?

- Ele é. Mas não contei nada. – ela chorando, arruinando a maquiagem.

- Não é que eu não queira. – ele passou a mão pelos cabelos secos. – Tudo que eu quis nesses últimos anos... foi ter você. Ter você comigo. Ter você comigo de novo. Mas, mas assim? Não sei. E as crianças?

- Ficam com a minha mãe. Já está tudo certo. Eu tenho dinheiro guardado. Não vai faltar nada para elas. – os nós dos dedos dela brancos, apertando o guarda-chuva e uma coisa dentro da bolsa.

- Eu senti muito a sua falta. – e ele completou o sorriso.

- Eu sinto muito a sua falta. – e mais lágrimas, borrando a maquiagem.

- Então vou estar te esperando. – um passo para trás.

E um estrondo surdo, um estampido. E cheiro de pólvora. E cheiro de sangue. E a chuva caindo.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Coração da tempestade

Um chapéu de aba, grande. Maior do que sua cabeça, desengonçado, torto. Marrom, manchado pelas gotas d'água em um tom mais escuro. O olhar era fixo, decidido, demonstração de uma vontade inexorável. Persistia sentado no telhado, as gotas caindo devagar em gotas finas e frias. Camisa aberta, branca, as mangas arregaçadas até o cotovelo, o peito nu molhado e gelado com as gotas - ainda finas, ainda frias. Estalava os dedos. De tempos em tempos, estalava os dedos. E continhava olhando. A bermuda ocre, de brim, estava ensopada. Absorvia a água que escorria pelo telhado como cascata em miniatura. Os sapatos estavam arruinados, sujos de lama e graxa. Ele não queria se lembrar como os havia sujado. E continuava olhando.

Estava frio. Ignorou o casaco; havia deixado-o para trás faz muito tempo. Se é que ainda havia atrás, pensou tristemente. Deve ter sido engraçado, pelo menos para ele, porque riu. Uma única risada, quase um sorriso, o máximo que podia fazer sem desfazer seu olhar. Alegria não combinava com aquele olhar. Um sorriso não combinava com aquele olhar. Uma pessoa não combinava com aquele olhar.

Se levantou. A água escorreu por todo seu corpo. O vento desnudou seu ombro direito, mas ele não se importou. Ou talvez nem tenha percebido. Deu dois passos para trás; escorregou na graxa presa na sola dos sapatos. Recomposto em alguns segundos, sem desviar o olhar mesmo enquanto caía, correu. Quebrou telhas, escorregou, quase caiu. E quanto estava perto o bastante (quando julgou estar perto o bastante), saltou.


O ar congelou a seu redor, o tempo desacelerou, a gravidade inexistia. As gotas não o atingiam em seu momento sublime parado em pleno ar, sua camisa pendurada no braço esquerdo. Voava; invencível, inabalável, seguro. Determinado. Nem por um segundo achou que não conseguiria. Havia vencido desde que tomara a decisão. Esticou o braço, uma certeza absoluta guiando seus movimentos como uma máquina perfeitamente calibrada. Uma gota tocou seu rosto. Os dedos tocaram a borda. Flutuou e se segurou. Gotas o atingiram como uma metralhadora, seu mundo explodiu em dor contra a parede. Ele apenas esticou o outro braço e se puxou para cima com um único movimento, apesar dos braços finos, colocando-se imediatamente de pé no último telhado. E a chuva se tornou tempestade.

Gotas se tornaram baldes, vento se tornou furacão, o frio se tornou gelo. Seu olhar se transformou. Desafiava a água, desafiava o vento, desafiava o frio, com seu olhar destemido, um sorriso selvagem estampado no rosto molhado de chuva e lágrimas. O vento arrancou de vez a camisa e ele precisou ajustar a base para não cair do telhado. Respirou fundo e começou a gargalhar. Era imbatível. Via o vento arrastando folhas que nada podiam faezr para reagir, a força das pancadas de água dobrando plantas e as pessoas tremendo de frio abaixo dele. Sim, abaixo dele. Havia superado a água, o vento e o frio. Havia superado a tempestade.

Mas era tolo. Como toda pessoa, havia tolice escondide em algum canto de sua mente e sua alma e, como tolo que era, lançou um olhar para o céu. Um único olhar para o céu, para a imensa, assustadora e magnífica nuvem negra que vomitava água e vento e frio. Um brilho azul e ele olhou o coração da tempestade. E a tempestade olhou em seu coração. E o trovão soou como uma gargalhada depois que o relâmpago o ofuscou e o raio atravessou seu corpo.