segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Wakarimasen

Quando eu era mais novo, tinha uma mania chata de dizer que odiava tudo. Odiava livros que eu nunca tinha lido, odiava filmes que eu nunca tinha visto, odiava escritores que eu admirara na semana anterior, odiava quem esbarrava comigo na rua se não pedissem desculpa. Odiava tudo. Coisa de adolescente, óbvio. Com o tempo, entendi que ódio é uma coisa diferente. Várias das coisas que eu odiava na molequice são coisas que eu simplesmente não gostava ou que eu gostava de dizer que não gostava. Algumas eu realmente odiava (e ainda odeio; se esbarrarem em mim na rua, peçam desculpas) mas uma quantidade considerável dessas coisas eu simplesmente não entendia. São elas:

Harry Potter

Se alguém me perguntasse sobre Harry Potter quando eu era moleque, eu teria uma de duas respostas na ponta da língua, dependendo da pessoa. Na maior parte dos casos, eu só diria que odiava, que achava idiota e infantil, que a capa era feia, que todos os leitores eram imbecis. O pior é que praticamente todo mundo queria que eu lesse Harry Potter por algum motivo. Todo mundo achava que por gostar de literatura de fantasia eu ia gostar daquilo. O moleque usava uma varinha, cacete. Tem como ser mais escroto que isso?
Hoje eu continuo não entendendo Harry Potter. Vi três dos filmes e comecei a ler o primeiro livro mais de uma vez. Não gostei, simplesmente não me fisgou. Não é nenhum defeito da série, inclusive a autora parece ter uma narrativa bem fluida pelo pouco que li. Estou bastante interessado em ler o livro para adultos que ela lançou recentemente. Eu até gosto de Books of Magic, que tem tantas similaridades com Harry Potter. Não sei explicar o motivo de não curtir a série. Acho que eu simplesmente não entendo Harry Potter.

Religião

Do alto da minha molequice, eu era o seu ateísta adolescente clássico. Odiava todas as religiões, achava que todas elas não traziam nada de bom, desdenhava de tudo abertamente, generalizava absolutamente tudo. Eu devia ser um porre. Ainda bem que não existia Facebook na época.
Anos depois e passando por meia dúzia de colapsos nervosos, acabei encontrando minha fé. Qual é a minha religião não vem ao caso, a questão é que eu guardo ela pra mim. É minha crença, ela me ajuda quando eu preciso e não é da conta de mais ninguém. A minha falta de crença eu esfregava na cara de todo mundo. Será que não dava pra todo mundo ser um pouco assim? Se você acredita em alguma coisa ou não é problema seu. Tolerância faz bem pra todo mundo e tanto religiosos quanto ateus podiam exercer um pouquinho.

Jornada nas Estrelas


Eu vi muito pouco da série clássica de Star Trek. Antes mesmo de ter visto, por algum motivo, eu já odiava. Acho que deve ter tido alguma coisa a ver com os heróis de Star Trek terem pistolas e os heróis de Star Wars terem espadas. Na minha cabeça de 15 anos, gostar dos dois era um crime e eu preferia sabres de luz (parece que muita gente ainda pensa assim).
Depois de ver os filmes da Nova Geração e o reboot do J.J. Abrams, te digo sem medo - gosto dos filmes de Star Trek. Sim, só dos filmes. Todo o resto que eu tentei ver é tão datado que eu não consigo achar divertido. Diabos, Kirk, vá escalar uma montanha. Não entendo trekkers e acho que nunca vou entender.

Flamengo

Quando eu era muito criança, eu fui flamenguista. Meu pai era flamenguista e a coisa meio que fluiu daí. Eu nem ligava muito pra futebol na época, então não fazia muita diferença. Fui ligando menos e menos para futebol até nem lembrar direito pra qual time eu torcia.
A camisa clássica do Fluminense é linda. Isso não me fez escolher meu time de coração. Foi Nelson Rodrigues. Vi um dos seus famosos discursos sobre o Fluminense em um programa de esportes da vida e antes que eu percebesse, meu coração já era tricolor. Fui me interessando mais e mais por futebol até que a Libertadores de 2008 me transformou num torcedor de verdade. Hoje sou tricolor de corpo e alma e continuarei sendo até morrer.
Obviamente, minha opinião sobre o Flamengo mudou. Se antes eu praticamente não me importava com o time rubro-negro, hoje é a equipe que eu mais adoro odiar. Cada tropeço em um campeonato é um sorriso, cada Magal contratado é uma gargalhada, cada Ronaldinho ou Vagner Love que vão embora é uma piada pronta. Eu torço por dois times - pro Fluminense e pra quem quer que esteja jogando contra o Flamengo. Até hoje eu não entendo torcedores do Flamengo. Pra que torcer pra esse time, quando podem torcer pro Fluminense?

Chá: O meu ódio mais silencioso durante a adolescência foi contra o chá. Minha mãe me dava chá quando eu estava resfriado ou com alguma outra doença e era um saco. Era água suja e quente! Pra mim era um suplício e ainda tenho vagas lembranças de chorar e espernear e discutir para evitar tomar uma xícara daquela bebia infernal (talvez isso tenha sido anterior à adolescência). O pior do meu ódio por chá é que eu não podia compartilhar com ninguém. Sempre tinha um ou outro amiguinho que odiava Harry Potter pra gente rir juntos pensando como éramos infinitamente mais inteligentes que todo o resto por ler [insira-mangá-da-vez] em vez daquilo. Mas chá? Eu tinha pra mim que era um ódio solitário. Deixei guardado comigo por muito tempo.
Só fui começar a dar uma segunda chance pro chá recentemente. Minhas primeiras experiências com iced tea foram péssimas, basicamente por eu não gostar de pêssego e só servirem iced tea de pêssego em tudo quanto é canto. Depois de experimentar um iced tea de limão, curti. Dois minutos de pesquisa depois, descubro que iced tea não é chá, é refrigerante. Pensando que algum dos meus ódios adolescentes era justificado, decidi seguir em frente - até que um dia no trabalho quando eu percebi que tinha água quente e um monte de saquinhos de chá. Prestes a entrar numa dieta, respirei fundo e decidir dar uma nova chance. Acontece que chá de hortelã é uma delícia. Tenho tomado com frequência e é a minha bebida quente favorita. Também não é raro achar iced tea de limão na minha geladeira. Chá foi de longe o mais injustiçado dos meus ódios, por ser uma coisa que eu realmente não entendia. Isso ou minha mãe esquentava a água demais.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Para ver/assistir/jogar


Livros:
Only Revolutions (2006) de Mark Z. Danielewski 
Truancy de Isamu Fukui
1984
Elemental Logic series
(Fire Logic (2002), Earth Logic (2004), Water Logic (2007) Air Logic (ainda não saiu))
 Filmes: 
5 Centimeters Per Second (2007) de Makoto Shinkai (Anime)
Gummo


Anime:
Magical Girl Lyrical Nanoha
Boogiepop Fantom
Baccano
Suzumiya Haruhi

Mangá/Comics:
Kurohime
Lucifer and the Biscuit Hammer
Mouse Guard
Sandman
Chase
(90s)/Manhunter (ambos da  DC)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Morra jovem e salve a si mesmo

A porta se fechou atrás dele com um rangido de madeira velha. A música do andar de baixo, abafada. André sentia nas orelhas, na garganta, a própria pulsação. A mão dela segurava a ponta dos dedos dele. Percebeu que suava. Abriu a boca para falar – o coração parecia que ia lhe saltar garganta a fora – mas desistiu. Os olhos se acostumavam à escuridão. Ela o puxou e antes mesmo dele perceber ela estava envolta em seus braços, lábios tocando pescoços e orelhas, dedos deslizando por costas. Respirações entecortadas, o coração acelerado, o som repetitivo de tecido contra tecido. O cheiro de álcool no hálito dela. Os olhos – ele viu os olhos. “A gente não devia fazer isso”, pensou em dizer. “Deita ali e tira a calça”, também pensou em dizer.

- Você é linda. – acabou dizendo, a voz falhando. Mal conseguia vê-la no escuro.

Ela murmurou alguma coisa no ouvido dele. André não entendeu uma palavra, mas o hálito quente do sussurro acabou com todas as suas dúvidas. Derrubou-a na cama, arrancando a camiseta e jogando longe ao mesmo tempo que tateava o fecho do sutiã.

- ‘peraí, ‘peraí. –ela disse, se afastou um pouco e ele quase achou que ia acabar por ali mesmo. – ‘xa que eu tiro.

Bárbara não era uma menina especialmente bonita. Ela não era feia, mas sim bastante comum. Ela tinha essa certa tendência a acabar sendo ignorada justamente por causa disso. Para compensar a falta de atrativos físicos, Bárbara tomava a iniciativa. E tinha ficado evidente para André como isso era eficaz. Mesmo regulando idade com ele, Bárbara deixou bem claro que já tinha considerável experiência.

Suado e satisfeito, André se vestiu apressadamente assim como Bárbara. Com um último beijo molhado, ela escancarou a porta de madeira – rangendo de novo – e desceu os degraus rapidamente.

Envolto pela música do andar de baixo, André se sentia estranho. Ele esperava que magicamente se sentisse um homem, mas só se sentia um menino. Um menino com medo de que o primo descobrisse o que ele tinha acabado de fazer.

domingo, 25 de setembro de 2011

New 52

Praticamente todo mundo com quem eu falei sobre o reboot da DC já sabe - eu não estava esperando nada. Títulos que eu estava acompanhando (Teen Titans, Superboy, Red Robin, Batman & Robin) seriam resetados. A cronologia ficaria uma bagunça. Personagens seriam abandonados para sempre (Spoiler) ou modificados ao ponto de ficarem irreconhecíveis (Barbara Gordon).
Agora que os títulos estão saindo, eu posso dizer tranquilamente: eu quebrei a cara. Duas vezes.
Pictured: Diana quebrando a minha cara
Wonder Woman #1, por Brian Azarello e Cliff Chiang, é um excelente começo. Antes de mais nada, Azarello nem tenta se enfiar na bagunça que é a cronologia DC ou as origens da personagem título. O foco dele aqui é em sua história - que é a de uma mulher sendo envolvida nas maquinações dos deuses (adaptados ao século XXI) e sendo protegida por Diana. O grande mérito de Azarello aqui é dizer abertamente que ele não se importa com o reboot, ele se importa com a história dele. E só um autor do gabarito de Azarello (100 Bullets) tem moral de fazer uma coisa dessas. A missão do título não é fácil - dar uma cara a um personagem que o grande público nunca conheçou de verdade.
Não dá pra evitar de mencionar como a arte de Chiang é boa e adequada ao estilo de Azarello. É quase uma fantasia mítica hardboiled, por assim dizer. Violência e sensualidade são elementos já nessa primeira edição, mas eles são secundários, casuais - como são para os personagens. Chiang consegue manter a dose certa entre estranhamento e familiaridade com as coisas bizarras acontecendo nessas pouco mais de vinte páginas. E você tem que aplaudir um cara que consegue fazer com que você demore um pouco para perceber que a Mulher Maravilha está sem roupa.

Mas eu não tinha dito que quebrei a cara duas vezes? Sim, foram duas vezes. A primeira foi com a Mulher Maravilha de Azarello, muito melhor do que eu achava que o reboot poderia criar. Assim que aparecer nas bancas aqui, vou saltar em cima dessa série com tudo. A segunda foi com Catwoman e Red Hood and the Outlaws. Eu disse lá em cima que esperava muito pouco do reboot, então não cheguei a ficar aborrecido com JLA. Mas essas duas... conseguiram ficar abaixo do que eu esperava.
O problema aqui vem de homens velhos escrevendo mulheres jovens. Estelar e Mulher-Gato na teoria estão sendo escritas como 'mulheres sexualmente agressivas'. Na prática, o que a gente vê é um pornô softcore pra homens e duas personagens respeitadas sendo jogadas pra escanteio. Ambas Estelar e Mulher-Gato eram escritas como sexualmente agressivas e decididas pré-reboot. Não sei de quem foi a idéia de ir além do impossível nessa questão, mas acaba tirando o crédito da história. Sexo não devia ser o foco de uma revista em quadrinhos de super-heróis - devia ser, no máximo, uma coisa secundária. Mas no caso de Mulher-Gato, a revista é sobre ela transando com o Batman. E isso é ainda mais apelativo do que qualquer coisa que eu esperava.
Me recusei a colocar fotos dessa nova Mulher-Gato aqui. Leiam Wonder Woman #1 e prestigiem bons quadrinhos.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Gris III - Seja você mesmo amanha, mesmo que morra graças a males emocionais

Às vezes me encontro caindo aos pedaços enquanto durmo sozinho num travesseiro de ferro com fronha de algodão. Algumas pessoas conseguem encontrar salvação nas outras, mas tem gente que só encontra dor. Às vezes alguém mata a dor, mas nem isso adianta, você gira no silêncio até finalmente ficar a deriva.
Buquês me deixam animado se voam pelos céus numa tarde de outono para serem agarrados num pátio de igreja. Me deixam desolado quando me lembro de deitá-los ao lado de uma lápide. Escondido de mim mesmo, joelhos queimados, eu oro. Já com todos os passos tomados na estrada errada, me volto e torno ao início. Dessa vez vou me lembrar de manter sua cerveja tão cheia quanto a minha, de me certificar que todos estão se divertindo, de beijar a chuva durante uma tempestade. Se me esforço demais e tudo acaba em pedaços não é nenhuma surpresa.
Mesmo que tenha pago o suficiente, tenha sido afastado ou impedido, no final das contas só duas coisas constituem suas memórias, boas ou ruins - sua vontade e a sorte. Portanto aumentar, apagar, fugir, derrotar não deviam ser só o que importa para você.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Chroma

Primeiro, ela escolheu se chamar Chrome. Pensou que soava bem, que transmitia bem a idéia que ela queria e exemplificava seus poderes. Essa era metade da importância do nom de guerre de um mutante, não era? Explicar seus poderes antes que precisassem perguntar. Na primeira semana, soube através de um militante dos direitos mutantes que já existia um Chrome, um já falecido capanga de Magneto. Querendo se distanciar de qualquer relação com aquele homem assustador, ela decidiu se chamar Chroma, o que trazia (pelo menos para ela) um certa sensação de empoderamento feminino.

Ela sempre teve dificuldades em decidir o que fazer da vida. Sem muitos sonhos ou grandes paixões, nem mesmo com traumas e dificuldades extremos, ela seguia pela vida na pista do meio, sem grandes excessos. Era uma vida que não era nunca mais nem menos, uma vida monótona e confortável, mais uma pessoa na multidão. Ela não sabia dizer, hoje, se gostava ou não daquela vida que seguia. Só que quando a revelação chegou, as coisas espiralaram fora de controle e não tinham mais volta. E era tudo culpa dela.

Um dia, no bar com os amigos de faculdade, ela serviu todos de cerveja e colocou a garrafa de volta na mesa. Alguns minutos depois, comentaram que a garrafa estava vermelha. Isso levou a meia dúzia de comentários, uns mais alarmados que outro, e outra garrafa veio. Mais tarde, em seu apartamento, ela ouviu um grito vindo do banheiro. Era sua amiga, que passara a noite dormindo no sofá e ao se olhar no espelho, viu que seu cabelo estava azul. Foi quando ela descobriu que era Chroma - possuía a habilidade mutante de mudar a cor das coisas.

Claro, uma mutação tão pequena podia ser ocultada se fosse controlada. Mas vendo na TV todos aqueles homens e mulheres uniformizados, como eles pareciam tão acima dos problemas mundanos que ela enfrentava sonolenta dia-a-dia, ela se decidiu. Não seria só uma mutante, seria uma mutante uniformizada, uma super-heroína.

As boas intenções de Chroma não deram muito certo. Seu poder primeiro ajudou com a confecção do uniforme - era só juntar as pessoas que queria e depois mudar as cores ao seu bel prazer. Após alguns dias rodando pela cidade em seu novo uniforme e recebendo mais atenção masculina do que nunca (ela nunca se achou muito bonita, mas aparentemente colantes e decotes tinham esse efeito), ela encontrou o primeiro crime em que se intrometeu - um assalto a uma farmácia. Felizmente eles não tinha armas. Ela foi empurrada para o lado, tentou perseguir os ladrões, ficou sem fôlego mais rápido que esperava. Não teve a chance de mudar a cor de nada. Mas perseverou em seu objetivo de se tornar um símbolo de alguma coisa através de suas ações e poderes. Ajudou um policial a impedir um estupro, ainda sem mudar a cor de coisa alguma. O policial, apenas um pouco mais velho que ela, recomendou que ela entrasse para a força policial ou procurasse um dos grupos de ajuda mutantes da cidade. Ela não gostou das sugestões e continuou nas suas patrulhas, até interromper um assalto a mão armada. Chroma nunca teve nenhum treinamento de defesa pessoal ou artes marciais, mas dessa vez ela pensou no que fazer. Saltou pela porta, a capa segura firme nas mãos, balançando-a enquanto trocava as cores da mesma com velocidade estonteante e se movia rápido na direção de seu alvo, seu vilão. O show de cores atordoou o homem por tempo suficiente para o soco de Chroma atingi-lo em cheio. Ela tomou a arma dele, eufórica, e apontou para o mesmo para que não se movesse. Nervosa e sem nenhuma prática com armas de fogo, ela atirou sem querer.

Presa por homicídio, com a faculdade interrompida, Chroma não tinha muito mais o que fazer na cadeia a não ser praticar seus poderes de mudança de cor (ela ainda não conseguia mudar as cores de algo que não estivesse tocando, por exemplo) e se manter viva.

Faltando dias para ser liberada, ela não fazia idéia do mundo que encontraria lá fora ou do que faria quando saísse. Ela era só uma menina que mudava cores.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

A curva 4.0

A curva

A música soava com uma frequência rotineira, criando uma sedutora trilha sonora que
vazava suavemente dos alto-falantes. O som de teclados eletrônicos e percussão leve era meu parceiro fiel em nossa jornada através das cortinas de negrume da madrugada. As janelas estavam frias ao toque, evidenciado a temperatura mais baixa do lado de fora, o que me enchia de estranheza. Sentia um frio brutal, invasor, me penetrando a carne e os ossos, gelando meu sangue nas veias. Através das manchas de impressões digitais que pintavam o vidro em sua sujeira, observei atenciosamente um casal se abraçando na esquina e invejei, de dentro do meu pesado casaco fechado, o calor que eles dividiam enquanto se protegiam da chuva, que escorria como uma preguiçosa cascata das marquises para as calçadas.

A música pulsou num timbre mais alto, porém ainda gentil, como o chiado distante de um pote de água fervente. Lancei um olhar rápido para ela, que dirigia, a testa franzida em uma careta permanente. O céu já brilhava fracamente, dando-nos um vago vislumbre da aurora distante. O carro disparava agora por um trecho dolorosamente reto da estrada, sem muito o que se observar pela janela. Ela não tinha movido o volante nem ao menos dois graus nos últimos vinte minutos. Eu não me lembrava a última vez que a havia ouvido falar desde que entramos no carro.

Um trem havia saído da cidade uma hora atrás, mas não esperara por mim. Enquanto aguardava, sentado em minha única mala, um cigarro pendurado nos lábios secos, percebi finalmente que outra época havia chegado, mas não a que eu esperava. Eu esperava a época dos recomeços, aguardava ansiosamente a aurora da minha nova era. Mas a época que chegava era simplesmente aquela dos resfriados e sobretudos, então abri minha mala e vesti meu casaco. Ao abrir a mala, vi uma foto de nós dois. Imediatamente, resquícios das memórias do verão inundaram minha mente e reconheci que ainda eram os dias que eu guardava mais carinhosamente nos confins do coração. Fomos tão perfeitos e tão felizes naquele verão e me sentia reconfortado ao pensar que se lembrariam de nossos sorrisos, ainda que fosse apenas por ser só o que conheceram. No começo, ela era como uma flor para mim, brotando de uma terra morte que mal tinha ervas daninhas, se dobrando na minha direção. Me agarrei ao caule dessa flor e puxei até arrancar suas raízes do chão, pensando que assim encontraria o que tanto procurava. Em minhas mãos, as pétalas murcharam e escureceram, então apressadamente a coloquei de volta na terra para que ainda pudesse viver e fui embora. Onde teria errado? De quem era a culpa? Saí da estação na mesma hora, a foto no bolso, com a certeza de ter errado ao ir embora. Ao sentir a chuva fria da tempestade que se aproximava, vi o carro dela estacionado.

A música parou, o que me tirou das lembranças, me jogando de volta para a atmosfera gelada daquele carro. Sem o som da música, o carro parecia parado também, a paisagem tão repetitiva que era estática. Considerei que se estávamos quietos na viagem era porque queríamos chegar em casa. Sem desviar o olhar, com um gesto quase mecânico, ela apontou para o botão de reprodução suavemente com a ponta de sua unha manicurada. Eu a impedi, segurando sua mão, que ela rapidamente levou de volta para o volante. Eu finalmente estava sendo resoluto... poderia ela me pedir para mudar?

No final do verão, passamos uma tarde surfando. Eu dividi o pouco conhecimento que tinha com ela e depois assistimos o sol se pondo, a cabeça dela apoiada no meu ombro carinhosamente. O céu deixava de ser um azul tão claro, se tingindo de laranja e vermelho, escurecendo de cima para baixo. O sol distante parecia uma gota de sangue sumindo num copo d'água. Me surpreendi ao perceber que ela estava falando. "Desculpe", eu disse sem desviar o olhar. "Eu não ouvi o que você estava falando. Não ouvi o que você disse antes também." Quando nossa primeira briga começou logo depois, eu me perguntava se tínhamos chegado àquele ponto antes e se chegaríamos nele de novo. Eu não sabia mais o quanto devia esperar dela.

"Por que você está fazendo isso?", ela disparou, finalmente falando, sem esperar uma resposta. Sua voz penetrou o ar viciado como um bisturi fazendo uma incisão, tão inesperadamente afiado que fez meu coração saltar. Dessa vez, ela tinha minha atenção incondicional.
"Eu não estou fazendo nada", eu disse, sem um átimo de crença no que dizia, enquanto ela tocava nervosamente o botão de reprodução. "Isso é o que é melhor. Para mim, para você, para nós." Ou talvez apenas para mim, pensei, enquanto uma lágrima se formava no canto de seu olho esquerdo. Ainda chovia; não uma torrente mas uma garoa fina, triste e gelada que parecia seguir o ritmo sonolento que pingava dos alto-falantes. Eu não te amo mais, era tudo o que eu queria dizer. O frio me abraçava com o carinho de um falso amigo e a aurora se esticava preguiçosa no horizonte, provocando com a promessa de um amanhã melhor.

Ela olhou para baixo e fechou seus olhos por um pouco mais que um instante, suas mãos delicadas se fechando com força no volante. Ela se voltou para mim rapidamente;
se olhares pudessem matar, eu teria sido fulminado ali mesmo. Súbito, a música jorrou dos alto-falantes, pulsando forte, raivosa. Então ela estava chorando, então ela estava gritando, então eu estava gritando. Nos perdemos na cadência da canção, duas poças crescentes na tempestade que se formava dentro do carro enquanto do lado de fora parava de chover. Fazíamos chover confissões e insultos, sem respostas ou soluções... e nós nem ao menos sabíamos as perguntas.

Nossas vozes entrecortadas se tornaram parte da música. O carro dardejava pela noite. Enquanto nossas vozes diminuíam, a cadência novamente dominou o ar. Adiante, uma curva se aproximava. Ela não fez menção de desacelerar.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Introdução do KD5

Karyu Densetsu 5: Aurora de uma Nova Era é um cenário muito parecido com o mundo em que vivemos, com uma grande diferença – não somente a força do espírito é indiscutível como já se tornou de conhecimento público. Esse poder espiritual pode ser chamado de ki, chi, prana, pneuma, mágica ou diversos outros nomes dependendo da cultura e/ou nacionalidade do falante. O grande público está acostumado ao nome focus, cunhado pelo mestre de artes marciais Kevin Cinder em suas entrevistas e exibições; a maior parte dos artistas marciais tradicionais aceita a denominação focus de forma resignada. Devido ao focus, no mundo de Aurora pessoas podem ser mais fortes e rápidas que no nosso mundo, além de uma grande variedade de feitos que observamos nas lendas, histórias em quadrinhos, filmes e desenhos animados. Um mestre de focus pode disparar raios pelos olhos, curar pela imposição das mãos, ver através de paredes e muito mais.

O cenário de Aurora se situa no ano de 201X. Esse número é propositadamente vago; trata-se de um futuro familiar, mas torna mais crível a inclusão de tecnologia avançada. No mundo de Karyu Densetsu, existem ciborgues, andróides e armas laser. Essa tecnologia é muito rara e cara, mas ainda existe como opção para personagens jogadores e é uma presença frequente no cenário. O fato dessa tecnologia existir e ser tão pouco conhecida pelo grande público é uma excelente ferramenta para evitar que poderes sobrenaturais saiam de controle – mesmo que seu personagem possa ficar invisível, nunca se sabe se existem sensores de pressão; mesmo que seus socos possam atravessar qualquer porta, talvez aquela porta específica seja feita de uma liga experimental ainda mais resistente. Além disso, a tecnologia avançada permite que personagens “normais” possam competir com personagens sobrenaturais. Você não é obrigado a criar um personagem que cospe bolas de fogo para jogar Karyu Densetsu e continuar como um elemento significativo da história.

Considerando os avanços tecnológicos e espirituais, o cenário apresenta diferenças consideráveis do nosso mundo como conhecemos, embora ainda se mantenha familiar. O focus depende de talento inato, portanto qualquer potencial usuário será visado por grandes corporações, governos, organizações terroristas ou escolas estabelecidas de artes marciais para ser recrutado. A China apresenta a maior quantidade de usuários de focus no mundo, o que faz com que sua ascensão politicoeconômica seja ainda mais acentuada em Karyu Densetsu que no mundo real – aqui, a China já é a maior potência mundial.

Diferente das versões anteriores do cenário e do sistema, KD5 não tem pretensões de englobar todos os conceitos ou gêneros possíveis. É um sistema voltado para a atmosfera dos mangás shounen com grande influência dos jogos de luta clássicos. O cenário apresenta seus próprios traços característicos, revisitando e expandindo conceitos explorados em histórias anteriores de Karyu Densetsu. Se prepare para rostos conhecidos e para não reconhecê-los.

Bem-vindo ao mundo do dragão de fogo.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Karyu Densetsu 5, preview

Previews da próxima versão do sistema de regras de Karyu Densetsu. Um atributo e uma vantagem. Espero que gostem.

Link pro Spidey sendo irado: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgVlC211czKccDGp3tXrKewC20SkdMD-zCFkeAneAoQSqVG2N8FZqlK9C0tK8ou8cdWR3d0_gvxho4QU-BmTR12V9G_sV0GJseXjDocF0Ex2yyh9QWOuIjdM6Zgm6Ofg2E-d5nS-leb6Fcj/s1600-h/Civil_War_%23007_009.jpg

Técnica

Este atributo representa a habilidade em combate do personagem. Pode ser resultante de experiência, instinto ou talento – o fato é que Técnica governa o quão bem um personagem luta. Um personagem com alta Técnica não é necessariamente rápido, nem necessariamente possui lindos movimentos fluidos – ele somente é muito bom em acertar pessoas e se defender.

Valor do Atributo Descrição

1 Criatura incapaz de se defender.

2 Animal com instinto de sobrevivência fraco (extinto, coitado).

3 Uma pessoa avessa a violência.

4 Uma pessoa normal sem treinamento, um animal domesticado.

5 Brigão de escola, animal selvagem.

6 Brigão de rua, animal selvagem especialmente feroz.

7 Artista marcial altamente treinado.

8 Dragão.

9 Exército de um homem só.

10 Insuperável abaixo dos céus.

Feito de Facilidade Fantástica (3 pontos)

Incrível!

- Sr. Fantástico, ao ver Homem-Aranha lutando (e vencendo) contra quatro oponentes.

Espetacular.

- Homem-Aranha, logo em seguida, ao nocautear Sr. Fantástico.

Requisitos: Presença 8, Pose Dramática

As regras normais da realidade não se aplicam quando você faz coisas realmente fantásticas. Gaste dois pontos de destino e descreva sua ação. Os demais jogadores (incluindo o Mestre) devem fazer uma votação – sua ação foi ‘realmente irada’ ou não foi? Cada voto positivo lhe permite rolar +1d6 para determinar sua ação; você escolhe os dois dados com os melhores resultados.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Apesar de toda sua raiva, ainda era um rato em uma gaiola

André ajeitou as cobertas para se sentir mais aquecido. Era mais uma noite fria de julho, mais um lembrete silencioso da solidão na qual ele estava imerso. O jovem rapaz sentia o corpo e a mente cansados, ansiava pelo repouso reconfortante do sono, mas pensamentos diversos cruzavam-lhe a consciência, impedindo-o de dormir.
A mente cansada de André, após a costumeira maratona que era sua vida de estudante de colégio integral, percorria cuidadosamente os eventos nada normais da última semana, revisando-os e tentando tirar algum sentido dos mesmos.
Chateado com sua incapacidade de dormir, levantou-se, derrubando as cobertas no chão. O frio o abraçou como uma amante falsa e mesquinha; uma sensação que o rapaz ainda não conhecia, mas que logo figuraria entre suas lembranças mais detestadas.
O corpo todo doía. Sem dúvida, os eventos recentes haviam exigido dele mais do que estava acostumado a fazer. Não que ele fosse completamente fora de forma; mesmo consumindo uma quantidade assustadora de comida pouco saudável, André contava com um metabolismo acelerado próprio da adolescência e exercícios regulares na forma de natação e aulas de judô. Nada disso o havia preparado para uma maratona de fuga, correndo e se escondendo por mais de seis horas. Ele sentia que seu corpo devia doer mais devido aos golpes que havia recebido, mas estranhamente até as marcas roxas da pele sumiram em pouco tempo. De certa forma isso preocupava o rapaz.
O que mais o preocupava, porém, é que independente da bizarrice de seus últimos dias, o que mais o incomodava e o que realmente o impedia de dormir era a mudança no comportamento de Vanessa. Em um dia estavam tão próximos, no outro tão distantes. O que podia estar acontecendo para aquela menina que ele sabia ser tão solitária subitamente se afastar de quem ela mesma dizia ser seu único amigo?
Então, alguma coisa bateu na janela de André. Fogo queimou nos seus olhos e no seu sangue. Seu coração se acelerou. E uma parte do que era ele, pequena mas significativa, morreu naquele momento.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Epílogo

Parado diante da fachada recém-pintada da padaria, André tentava impedir que sua mente fosse inundada de pensamentos, sem muito sucesso. Os últimos anos haviam redefinido sua vida, alterado seus conceito e ele quase não conseguia se reconhecer, de quando em vez. Era tão estranho assim esperar que ele se lembrasse das coisas como eram, que o encontraria sentado diante do balcão como se não houvessem passado anos e sim dias? André se sentia tolo, inadequado, apertado dentro de suas roupas escuras. Sentiu um pouco de medo.

Achava tolice depois de tudo que já tinha se passado com ele, mas não conseguia evitar. Suspirou e entrou na antiga padaria, tão conhecida das manhãs de sábado. Ele esperava que o lugar fosse parecer diferente, distorcido - como ele próprio. A padaria, recém-pintada, com novos funcionários uniformizados, ainda parecia o mesmo lugar, de alguma forma. O mesmo cheiro de pão novo, a mesma rachadura circulando a grande lâmpada central.

Daniel estava sentado diante do balcão, com duas garrafas vazias de Coca-Cola diante dele e uma em suas mãos. Ele saudou André com a garrafa e o mais novo se sentou no banco ao lado.

- Você não mudou nada. - disse André ao se sentar, pesar de Daniel ter abandonado o cavanhaque e usar o cabelo um pouco mais curto. Sua aura continuava a mesma e André se acostumara a ver as pessoas assim.

- Não posso dizer o mesmo de você. - respondeu o ex-vocalista dos Ratos.

Era verdade. André crescera, como era de se esperar - regulava altura com o primo, agora. Seus olhos estavam mais escuros, sua voz mais grave, seus movimentos mais econômicos, sua postura mais alerta, sua pele mais queimada do sol. Vestido em uma calça de brim preta e uma camiseta cinza, parecia outra pessoa. Ele mesmo pensava concordava com o comentário, fazendo raciocínio similar quando se lembrava das cicatrizes novas - físicas e emocionais.

Um silêncio desconfortável se instalou. André mantia um sorriso bobo de fã diante do primo que - percebia agora - ainda era seu ídolo. Daniel bebia a Coca-Cola em goles pequenos, sem dar muita atenção ao resto do mundo.

- Então, - começou André, a voz saindo errada. - o que tem feito?

- O mesmo de sempre. Você?

Daniel mentia, embora sem saber. Os Ratos haviam se separado, ele não namorava mais Melissa, não trabalhava mais na loja de discos, havia vendido o carro. Para ele, porém, a vida continuava igual. Nada lhe parecia ter mudado. A falta desse conhecimento causou em André forte inveja. Ele sentia falta dos velhos tempos, da tranquilidade e - por que não? - inocência de sua juventude. Sentiu vontade de contar ao primo tudo que havia feito nos últimos anos, mas sabia que não devia. Escolheu contar parte da verdade.

- Faço uma tradução aqui ou ali. De vez em quando fico de intérprete. Tenho viajado bastante. Freelance, sempre.

- Que foda, cara. - Daniel disse, faltando ênfase nas palavras. - Muito foda mesmo. Tá curtindo?

- É... às vezes. Sei lá. - Dúvida. - Sinto... sinto falta dos velhos tempos.

- Você cresceu, cara. Você cresceu. É só isso. - Daniel deu um tapa camarada no ombro do primo.

- Mas sabe... às vezes eu não me reconheço. As coisas que eu faço, que eu tive que fazer... eu não me sinto mais a mesma pessoa. Me olho no espelho e penso... 'quem é esse cara?', sabe?

- Não, cara... não sei não. Mas se liga. Tu passou dessa fase, tu cresceu mesmo. Evoluiu, sei lá. Não tem que se sentir esquisito, porra. - ele ia acender um cigarro, mas desistiu.

- Se isso é evolução, Darwin é um babaca.

Riram os dois. Daniel riu de verdade. André riu por hábito.

- E a Melissa? - perguntou André.

- Se mandou. - Daniel deu de ombros. - Se mandou. Faz uns meses já... um ano talvez. Coisa assim. - Diante dos olhos arregalados do primo, adicionou. - Essas coisas acontecem. Você vai ver.

André sorriu, duvidando entrar em um relacionamento tão cedo.

- Você trouxe o que eu pedi? - o primo mais novo mudou de assunto rapidamente.

- Trouxe. - Daniel tirou uma foto do bolso e entregou para o primo. - Por que isso é tão importante?

André olhou a foto velha de um ensaio dos Ratos. Todos os velhos amigos enfiados no estúdio bolorento, cabelos grandes desgrenhados, camisetas pretas.

- É importante. Pode crer, é importante.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Gris II

- Se insanidade leva ao caos e então à solidão, se medo leva à fúria e então ao Lado Negro... então tristeza leva à apatia e daí para a morte. - ela sussurrou roucamente por entre lábios secos disfarçados pelo batom preto.
Um suspiro doeu-lhe o pulmão, mas não a impediu de tragar novamente. Jogou as cinzas no chão com o desleixo de quem não quer mais se importar, sujando de cinza o piso de tacos.
Uma mancha de cor indefinida surgia no teto, denunciando uma infiltração. Ela não se permitiu chorar. Queria dizer que já tinha secado todas as suas lágrimas, mas seria uma mentira. Ela ainda tinha muito o que chorar, só não queria fazê-lo agora.
- Preciso continuar no estágio da tristeza.
Antes de sair, ela lançou um olhar para a convidativa garrafa de tequila em cima da mesa. Parou no batente da porta, seus olhos se encheram de lágrimas.
Não! Ela repetiu para si mesma no silêncio da própria mente, a mão manicurada estrangulando a maçaneta. Os lábios secos, cobertos de batom preto, franzidos.
Ela bateu a porta ao sair e correu pelas escadas, coração pulando no peito, garganta seca, saltou dois degraus, em movimento no mundo parado, colorida no mundo em preto e branco.
- Posso até voltar para casa cinza. - limpou as lágrimas. - Mas nunca sair.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Para onde vão?

Era uma grande montanha, de encostas traiçoeiras e escorregadias, uma cicatriz no céu azul. Ele a escalou e depois atravessou um rio a nado, a mochila lhe pesando nas costas o tempo todo.
Comia peixes que catava pelo caminho e frutas - quando as encontrava.
Enfim chegou sujo e cansado ao seu destino, um templo escondidos entre pedras enormes. Estava sujo, cansado e faminto. Não por comida - a essa fome já havia se acostumado faz tempo. Tinha fome de respostas.
Uma vez no templo, foi recebido por monges trajando robes simples e cabeças raspadas. Testaram sua coragem em uma sala forrada de brasas, sua sabedoria com uma série de enigmas e sua ambição com uma única pergunta.
Finalmente, ele foi levado à presença da Sábia.
- Para onde vão os corações partidos?
- Eu não sei. - ela respondeu, enfiada em diversas camadas de pano vermelho. - Mas sinto falta deles, de alguma forma.
- Eles podem encontrar seu caminho pra casa?
- Eles nunca foram embora.

terça-feira, 30 de março de 2010

Whereabouts unknown

nosoul: CHICKEN PORRA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
nosoul: onde vc estava caralho?
Thiago Shinken // Céu é tudo aquilo acima do chão: to em aula, pô. fico com menos tempo.
nosoul: porra
nosoul: entao é assim, uma educacao de segunda vale mais do q ficar aki babando meu ovo?
nosoul: vlw
nosoul: bom amigo vc

sexta-feira, 26 de março de 2010

Infeliz

Eu quero escrever sobre sorrisos e alegrias, sobre pessoas vencendo dificuldades, sobre amores sem mácula, sobre heróis perfeitos, sobre vitória e misericórdia.
Quero um mundo livre, bonito, de moral aceita e não imposta. Quero justiça, quero civilidade, quero compreensão. Quero ajudar, quero poder ajudar, quero fazer parte, quero enfrentar, quero saber quem enfrentar. Quero fazer tudo isso para poder escrever sobre tudo isso.
O mundo me parece infeliz. O que escrevo me parece infeliz.
Talvez eu só esteja infeliz.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Inércia

Todas as tardes nubladas de outono carregam o cinza no sol, no vento, nas nuvens e nas pessoas. O sol cinzento do outono nublado passava preguiçosamente pela grossa camada de poeira encrustada no vidro da janela velha. A madeira, descascada, devorada por produtos de limpeza e cupins, tingia de ruína o cinza de quem olhava para dentro ou para fora.
Chovia. Chovia fraco e chovia preguiçoso, como uma goteira mal fechada que pinga a madrugada inteira. Mais pingava que chovia. As gotas, de lentas que eram, pouco faziam para tirar a poeira da janela.
Douglas observava, uma lata quase vazia de chá gelado na mão, apoiado ao batente. Costumava ser um grande admirador do outono. Apreciava imensamente os dias de sol, mornos como abraço de amigo, entrecortados de brisas refrescantes. Mantinha também um carinho especial pelos dias nublados de chuva fina e frio que dispensava agasalhos.
"Hoje não é um dia desses", pensou um desanimado Douglas. "Esse não é o cinza do meu outono. É tímido demais."
Enquanto via por sua moldura arruinada as pessoas se arrastando pela vida lá fora, Douglas se perguntava o quão distante estava daquilo. Não se arrastava, também, pela vida? Não permanecia, ele próprio, num estado de repouso até que um ou outro evento o arrancasse do mesmo?
- Talvez seja mesmo hora de agir. - disse para ninguém em particular.
O rapaz de cabelos castanhos e olhos negros, do alto de suas quase duas décadas, tinha muito do que se arrepender. De alguma forma, apesar de sujeito à mesma inércia que condenava nos transeuntes logo abaixo, Douglas não tinha dúvidas de que vivera plenamente até ali. Ele havia errado, acertado, sofrido, sorrido, ferido e sangrado. Coincidências, destino talvez - mas nunca escolhas conscientes.
"Mais isto que aquilo.", e tomou em mãos o telefone. Decidiu desafiar a inércia da vida, uma vez que fosse, por conta própria.
- Alô, Vanessa? É o Douglas...

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Olá, escuridão, minha velha amiga


Acho que o silêncio é uma coisa assustadora.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Orgulho. 誇り . Pride. Medo. 心労 . Fear.

Eu já falei sobre como acho que pessoas realmente orgulhosas deveriam gostar do vento. Penso o mesmo sobre o mar, mas a questão aqui não é essa; é que eu acho que pessoas realmente orgulhosas não costumam ter medo.
Eu me considero uma pessoa orgulhosa... mas sinto muito medo.
Quando você tem um orgulho 'de nicho', acho bem aceitável sentir medo em outras questões. Um leve receio em uma situação que seu nicho é ameaçado também é aceitável. Mas medo beirando o pavor? Isso fere o orgulho. Se você tem orgulho de sua habilidade, um oponente à altura não deve te apavorar - deve te motivar.
O medo é um mecanismo de defesa. É uma parte do seu subconsciente dizendo 'sai dessa'. Uma vozinha no fundo da cabeça te dizendo pra fugir. Às vezes o medo pode te salvar a vida, mas muitas vezes ele te sabota com aquele segundo de hesitação, com aquele momento de 'talvez eu não consiga'.
Pode ser que meu orgulho já esteja rachado demais, no final das contas.

Did you see the sky?
I think it means that we've been lost.
Maybe one less time is all we need.
I can't really help it if my tongue's all tied in knots.
Jumping off a bridge, it's just the farthest that I've ever been...
Anywhere you go, I'll follow you down...
anyplace but those I know by heart.
Anywhere you go, I'll follow you down...
I'll follow you down, but not that far.
I know we're headed somewhere, I can see how far we've come.
But still I can't remember anything.
Let's not do the wrong thing and I'll swear it might be fun.
It's a long way down when all the knots we've tied have come undone.
Anywhere you go, I'll follow you down...
anyplace but those I know by heart.
Anywhere you go, I'll follow you down...
I'll follow you down, but not that far.
How you gonna ever find your place
running in an artificial pace?
Are they gonna find us lying face down in the sand?
So what the hell now, we've already been forever damned!
Anywhere you go, I'll follow you down...

- Gin Blossoms, Follow You Down

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Blood Moon


A primeira lua cheia depois da lua da colheita, a lua cheia mais próxima do equinócio de outono.
Considero um mau agouro.
Ver uma lua vermelha no horizonte, pra mim, é um presságio de tempestade. De trovões e relâmpagos, de terra tremendo. De furacões soprando, de rios transbordando. É, parece que o tempo fechou...
Uma lua vermelha representa as épocas ruins.
Mas mesmo que isso me arruine, tudo o que eu preciso é ainda ter forças pra dizer: vou orar por compreensão, vou orar pelo seu sucesso.