sábado, 14 de junho de 2008

Note to self

Sentir falta das coisas não quer dizer que você não gosta das coisas do jeito que estão. Às vezes está tudo ótimo, mas antes também estava e fica a dúvida de quando é melhor. Dura meio segundo, menos às vezes e fica a certeza de que podia ser melhor. Podia ser melhor do que foi e do que é, melhor do que nunca será. Nunca será porque falta coragem para mudar, de dois lados. Sobra capacidade de análise, de avaliação, uma mania de controlar tudo, de prever as conseqüências... e pra que? Pra quebrar a cara como todo mundo, como todo mundo que não prevê, que não pensa, que segue em frente e vive a vida apaixonadamente sem pensar no próximo passo. De vez quando eu tenho uns surtos de 'só se vive uma vez' e faço isso. É uma semana ou outra repleta de atitudes ousadas, de mudanças e de problemas decorrentes das mesmas. E depois eu revejo tudo e penso em como juntar os cacos. Ah, como eu queria encarar o mundo sempre de peito aberto, desbravando dia após dia, living life to the fullest!!

Estou sentindo o cheiro de mudança no ar e estou começando a destestar esse jeito. Gosto da minha vida do jeito que está. Mas também já gostei de vidas diferentes. E sei que gostaria mais de outra vida. Impressionante como um único elemento pode mudar tudo às vezes.

sábado, 24 de maio de 2008

Nicolai does his thing

Nicolai <> Floretes e Devaneios - diz:
é o lado sadomasoquista em todos nós
Nicolai <> Floretes e Devaneios - diz:
é representada, visualmente, pelo cinto com um piru de borracha
Thiago Shinken // Denial, revisited diz:
...
Nicolai <> Floretes e Devaneios - diz:
ah, vamos, vc entendeu
Nicolai <> Floretes e Devaneios - diz:
é uma metáfora extremamente bela e rica em sentidos
Nicolai <> Floretes e Devaneios - diz:
ao mesmo tempo, simples

domingo, 30 de março de 2008

Last Love Song

Hold up until I stop to cry.
You told the truth, now you deny.
You can grow up, you can be mine.
Don't ask me why, I think that I hate you.
It all ended soon but you made me a better one;
at least the next will know
all that I’ve learned from you.
But I needed you,
and this is the last love song.
But I trusted you,
and this is the last love song to you...

Every time I close my eyes
bad memories just fall apart.
Good times were few
but they are the ones kept in my mind.

Hold up until I stop to cry.
You told the truth, now you deny.
You can grow up, you can be mine.
Don't ask me why, I think that I hate you.
It all ended soon but you made me a better one;
at least the next will know
all that I’ve learned from you.
But I needed you,
and this is the last love song.
But I trusted you,
and this is the last love song to you...

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Pavor (repostagem)

Existem algumas coisas das quais eu tenho pavor. Medo eu tenho de várias coisas, mas pavor... o pavor, real e absoluto, que gela o sangue (água ou fogo?) das suas veias, deixa seu corpo tremendo, a garganta seca, os pulmões parecendo vazios mesmo quando cheios de ar... pavor só de algumas coisas. Pavor do preto e do vermelho. Da sombra nos cantos, sempre fugindo à visão, no âmago do ser, do vazio maior que o todo que não se pode explicar, da apatia sombria, escura e fria que se espalha feito doença, uma praga interior, um câncer transparente, uma tristeza viscosa que se expande, uma aranha esguia e esperta prendendo minha alma numa teia. Do rubro flamejante, voraz, que engole até mesmo o azul, o verde e o branco, um carmesim selvagem, descontrolado... meu demônio escarlate, mantido preso em uma jaula cujas trancas teimam em falhar, cujas barras eventualmente vão se dobrar.

Pavor? Pavor eu só tenho de mim mesmo.

Desengano da vista

Foi ao médico logo cedo. Era uma consulta de rotina, ele bem sabia, coisa comum para quem se preparava para uma promoção na empresa em que trabalhava. Se lembrava claramente da secretária lhe avisando: "Há um exame médico marcado para o senhor". Um sorriso se desenhava involuntariamente em seus lábios, da mesma forma que quando recebera a notícia, sempre que a lembrança atravessava sua mente.

"Pode entrar, senhor."

A secretária do oftamologista era linda. Esguia, cabelos castanhos cuidadosamente presos em um coque, nenhum fio fora de lugar, óculos quadrados de aro grosso, traços finos e delicados, um certo ar europeu que o forçava a observá-la com atenção. O terno branco era elegante, vestia bem a jovem moça. Ela tinha, o que, uns 22 anos? Jovem, sim, não tão mais jovem que ele (mal havia passado dos trinta, gostava de lembrar). O paletó lhe parecia um pouco decotado demais, mas talvez fosse sua imaginação. Seus olhos por vezes o enganavam. Via um cachorro e pensava ser bem maior do que devia, via um buraco e achava ser mais fundo. Agora via um decote mais ousado do que realmente era.

"Não que eu esteja reclamando", murmurou para si mesmo enquanto finalmente entrou no consultório.

O médico o olhou por detrás da mesa, se levantou e apertou sua mão efusivamente, balançando-a com vigor. Era um homem pequeno, um pouco careca, barrigudo, mas um médico muito respeitado.

- Pode sentar. - disse o doutor, examinando os papéis que o paciente entregara. - Oh, sim, seus exames. Agora é só pegar a promoção, hein?

Ele apenas sorriu. O que mais podia dizer? Era a mais simples verdade.

O médico, porém, leu e releu os exames. O paciente começou a ficar preocupado. O que estava acontecendo?

- Doutor...? - perguntou, hesitante.

- É... é muito difícil para mim dizer isto. - o médico esfregou os olhos, suspirou, deu um tapa estalado na própria perna. - O senhor está cego.

Piscou. Olhou para o médico, prendendo seu olhar, envisando o fundo dos olhos negros do profissional da saúde. Olhou para as próprias mãos, as abriu e fechou. Leu a placa de PhD do doutor na parede.

- Doutor, minha visão está perfeita. - concluiu.

- Você deve procurar uma forma de aprender braile, comprar um cachorro. Um labrador. - suspirou. - Desculpe, devia ter percebido enquanto era tempo. Cego e sem cura. Mil perdões.

Lágrimas silenciosas escorriam pelo rosto do médico. E o paciente as via claramente. Sentindo-se em um ambiente surreal, feérico, ele se levantou bruscamente e saiu.

"Cego", resmungou sozinho. Que médico idiota.

Olhou para os dois lados, a rua completamente vazia, como se estivesse no Centro da cidade em uma manhã de domingo. Caminhou em segurança para atravessá-la e chegar a seu carro.
Foi quando um ônibus o atingiu em cheio. A última coisa que pensou foi "Médico filho da puta".