sexta-feira, 26 de março de 2010

Infeliz

Eu quero escrever sobre sorrisos e alegrias, sobre pessoas vencendo dificuldades, sobre amores sem mácula, sobre heróis perfeitos, sobre vitória e misericórdia.
Quero um mundo livre, bonito, de moral aceita e não imposta. Quero justiça, quero civilidade, quero compreensão. Quero ajudar, quero poder ajudar, quero fazer parte, quero enfrentar, quero saber quem enfrentar. Quero fazer tudo isso para poder escrever sobre tudo isso.
O mundo me parece infeliz. O que escrevo me parece infeliz.
Talvez eu só esteja infeliz.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Inércia

Todas as tardes nubladas de outono carregam o cinza no sol, no vento, nas nuvens e nas pessoas. O sol cinzento do outono nublado passava preguiçosamente pela grossa camada de poeira encrustada no vidro da janela velha. A madeira, descascada, devorada por produtos de limpeza e cupins, tingia de ruína o cinza de quem olhava para dentro ou para fora.
Chovia. Chovia fraco e chovia preguiçoso, como uma goteira mal fechada que pinga a madrugada inteira. Mais pingava que chovia. As gotas, de lentas que eram, pouco faziam para tirar a poeira da janela.
Douglas observava, uma lata quase vazia de chá gelado na mão, apoiado ao batente. Costumava ser um grande admirador do outono. Apreciava imensamente os dias de sol, mornos como abraço de amigo, entrecortados de brisas refrescantes. Mantinha também um carinho especial pelos dias nublados de chuva fina e frio que dispensava agasalhos.
"Hoje não é um dia desses", pensou um desanimado Douglas. "Esse não é o cinza do meu outono. É tímido demais."
Enquanto via por sua moldura arruinada as pessoas se arrastando pela vida lá fora, Douglas se perguntava o quão distante estava daquilo. Não se arrastava, também, pela vida? Não permanecia, ele próprio, num estado de repouso até que um ou outro evento o arrancasse do mesmo?
- Talvez seja mesmo hora de agir. - disse para ninguém em particular.
O rapaz de cabelos castanhos e olhos negros, do alto de suas quase duas décadas, tinha muito do que se arrepender. De alguma forma, apesar de sujeito à mesma inércia que condenava nos transeuntes logo abaixo, Douglas não tinha dúvidas de que vivera plenamente até ali. Ele havia errado, acertado, sofrido, sorrido, ferido e sangrado. Coincidências, destino talvez - mas nunca escolhas conscientes.
"Mais isto que aquilo.", e tomou em mãos o telefone. Decidiu desafiar a inércia da vida, uma vez que fosse, por conta própria.
- Alô, Vanessa? É o Douglas...

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Olá, escuridão, minha velha amiga


Acho que o silêncio é uma coisa assustadora.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Orgulho. 誇り . Pride. Medo. 心労 . Fear.

Eu já falei sobre como acho que pessoas realmente orgulhosas deveriam gostar do vento. Penso o mesmo sobre o mar, mas a questão aqui não é essa; é que eu acho que pessoas realmente orgulhosas não costumam ter medo.
Eu me considero uma pessoa orgulhosa... mas sinto muito medo.
Quando você tem um orgulho 'de nicho', acho bem aceitável sentir medo em outras questões. Um leve receio em uma situação que seu nicho é ameaçado também é aceitável. Mas medo beirando o pavor? Isso fere o orgulho. Se você tem orgulho de sua habilidade, um oponente à altura não deve te apavorar - deve te motivar.
O medo é um mecanismo de defesa. É uma parte do seu subconsciente dizendo 'sai dessa'. Uma vozinha no fundo da cabeça te dizendo pra fugir. Às vezes o medo pode te salvar a vida, mas muitas vezes ele te sabota com aquele segundo de hesitação, com aquele momento de 'talvez eu não consiga'.
Pode ser que meu orgulho já esteja rachado demais, no final das contas.

Did you see the sky?
I think it means that we've been lost.
Maybe one less time is all we need.
I can't really help it if my tongue's all tied in knots.
Jumping off a bridge, it's just the farthest that I've ever been...
Anywhere you go, I'll follow you down...
anyplace but those I know by heart.
Anywhere you go, I'll follow you down...
I'll follow you down, but not that far.
I know we're headed somewhere, I can see how far we've come.
But still I can't remember anything.
Let's not do the wrong thing and I'll swear it might be fun.
It's a long way down when all the knots we've tied have come undone.
Anywhere you go, I'll follow you down...
anyplace but those I know by heart.
Anywhere you go, I'll follow you down...
I'll follow you down, but not that far.
How you gonna ever find your place
running in an artificial pace?
Are they gonna find us lying face down in the sand?
So what the hell now, we've already been forever damned!
Anywhere you go, I'll follow you down...

- Gin Blossoms, Follow You Down

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Blood Moon


A primeira lua cheia depois da lua da colheita, a lua cheia mais próxima do equinócio de outono.
Considero um mau agouro.
Ver uma lua vermelha no horizonte, pra mim, é um presságio de tempestade. De trovões e relâmpagos, de terra tremendo. De furacões soprando, de rios transbordando. É, parece que o tempo fechou...
Uma lua vermelha representa as épocas ruins.
Mas mesmo que isso me arruine, tudo o que eu preciso é ainda ter forças pra dizer: vou orar por compreensão, vou orar pelo seu sucesso.