segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Morra jovem e salve a si mesmo

A porta se fechou atrás dele com um rangido de madeira velha. A música do andar de baixo, abafada. André sentia nas orelhas, na garganta, a própria pulsação. A mão dela segurava a ponta dos dedos dele. Percebeu que suava. Abriu a boca para falar – o coração parecia que ia lhe saltar garganta a fora – mas desistiu. Os olhos se acostumavam à escuridão. Ela o puxou e antes mesmo dele perceber ela estava envolta em seus braços, lábios tocando pescoços e orelhas, dedos deslizando por costas. Respirações entecortadas, o coração acelerado, o som repetitivo de tecido contra tecido. O cheiro de álcool no hálito dela. Os olhos – ele viu os olhos. “A gente não devia fazer isso”, pensou em dizer. “Deita ali e tira a calça”, também pensou em dizer.

- Você é linda. – acabou dizendo, a voz falhando. Mal conseguia vê-la no escuro.

Ela murmurou alguma coisa no ouvido dele. André não entendeu uma palavra, mas o hálito quente do sussurro acabou com todas as suas dúvidas. Derrubou-a na cama, arrancando a camiseta e jogando longe ao mesmo tempo que tateava o fecho do sutiã.

- ‘peraí, ‘peraí. –ela disse, se afastou um pouco e ele quase achou que ia acabar por ali mesmo. – ‘xa que eu tiro.

Bárbara não era uma menina especialmente bonita. Ela não era feia, mas sim bastante comum. Ela tinha essa certa tendência a acabar sendo ignorada justamente por causa disso. Para compensar a falta de atrativos físicos, Bárbara tomava a iniciativa. E tinha ficado evidente para André como isso era eficaz. Mesmo regulando idade com ele, Bárbara deixou bem claro que já tinha considerável experiência.

Suado e satisfeito, André se vestiu apressadamente assim como Bárbara. Com um último beijo molhado, ela escancarou a porta de madeira – rangendo de novo – e desceu os degraus rapidamente.

Envolto pela música do andar de baixo, André se sentia estranho. Ele esperava que magicamente se sentisse um homem, mas só se sentia um menino. Um menino com medo de que o primo descobrisse o que ele tinha acabado de fazer.

domingo, 25 de setembro de 2011

New 52

Praticamente todo mundo com quem eu falei sobre o reboot da DC já sabe - eu não estava esperando nada. Títulos que eu estava acompanhando (Teen Titans, Superboy, Red Robin, Batman & Robin) seriam resetados. A cronologia ficaria uma bagunça. Personagens seriam abandonados para sempre (Spoiler) ou modificados ao ponto de ficarem irreconhecíveis (Barbara Gordon).
Agora que os títulos estão saindo, eu posso dizer tranquilamente: eu quebrei a cara. Duas vezes.
Pictured: Diana quebrando a minha cara
Wonder Woman #1, por Brian Azarello e Cliff Chiang, é um excelente começo. Antes de mais nada, Azarello nem tenta se enfiar na bagunça que é a cronologia DC ou as origens da personagem título. O foco dele aqui é em sua história - que é a de uma mulher sendo envolvida nas maquinações dos deuses (adaptados ao século XXI) e sendo protegida por Diana. O grande mérito de Azarello aqui é dizer abertamente que ele não se importa com o reboot, ele se importa com a história dele. E só um autor do gabarito de Azarello (100 Bullets) tem moral de fazer uma coisa dessas. A missão do título não é fácil - dar uma cara a um personagem que o grande público nunca conheçou de verdade.
Não dá pra evitar de mencionar como a arte de Chiang é boa e adequada ao estilo de Azarello. É quase uma fantasia mítica hardboiled, por assim dizer. Violência e sensualidade são elementos já nessa primeira edição, mas eles são secundários, casuais - como são para os personagens. Chiang consegue manter a dose certa entre estranhamento e familiaridade com as coisas bizarras acontecendo nessas pouco mais de vinte páginas. E você tem que aplaudir um cara que consegue fazer com que você demore um pouco para perceber que a Mulher Maravilha está sem roupa.

Mas eu não tinha dito que quebrei a cara duas vezes? Sim, foram duas vezes. A primeira foi com a Mulher Maravilha de Azarello, muito melhor do que eu achava que o reboot poderia criar. Assim que aparecer nas bancas aqui, vou saltar em cima dessa série com tudo. A segunda foi com Catwoman e Red Hood and the Outlaws. Eu disse lá em cima que esperava muito pouco do reboot, então não cheguei a ficar aborrecido com JLA. Mas essas duas... conseguiram ficar abaixo do que eu esperava.
O problema aqui vem de homens velhos escrevendo mulheres jovens. Estelar e Mulher-Gato na teoria estão sendo escritas como 'mulheres sexualmente agressivas'. Na prática, o que a gente vê é um pornô softcore pra homens e duas personagens respeitadas sendo jogadas pra escanteio. Ambas Estelar e Mulher-Gato eram escritas como sexualmente agressivas e decididas pré-reboot. Não sei de quem foi a idéia de ir além do impossível nessa questão, mas acaba tirando o crédito da história. Sexo não devia ser o foco de uma revista em quadrinhos de super-heróis - devia ser, no máximo, uma coisa secundária. Mas no caso de Mulher-Gato, a revista é sobre ela transando com o Batman. E isso é ainda mais apelativo do que qualquer coisa que eu esperava.
Me recusei a colocar fotos dessa nova Mulher-Gato aqui. Leiam Wonder Woman #1 e prestigiem bons quadrinhos.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Gris III - Seja você mesmo amanha, mesmo que morra graças a males emocionais

Às vezes me encontro caindo aos pedaços enquanto durmo sozinho num travesseiro de ferro com fronha de algodão. Algumas pessoas conseguem encontrar salvação nas outras, mas tem gente que só encontra dor. Às vezes alguém mata a dor, mas nem isso adianta, você gira no silêncio até finalmente ficar a deriva.
Buquês me deixam animado se voam pelos céus numa tarde de outono para serem agarrados num pátio de igreja. Me deixam desolado quando me lembro de deitá-los ao lado de uma lápide. Escondido de mim mesmo, joelhos queimados, eu oro. Já com todos os passos tomados na estrada errada, me volto e torno ao início. Dessa vez vou me lembrar de manter sua cerveja tão cheia quanto a minha, de me certificar que todos estão se divertindo, de beijar a chuva durante uma tempestade. Se me esforço demais e tudo acaba em pedaços não é nenhuma surpresa.
Mesmo que tenha pago o suficiente, tenha sido afastado ou impedido, no final das contas só duas coisas constituem suas memórias, boas ou ruins - sua vontade e a sorte. Portanto aumentar, apagar, fugir, derrotar não deviam ser só o que importa para você.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Chroma

Primeiro, ela escolheu se chamar Chrome. Pensou que soava bem, que transmitia bem a idéia que ela queria e exemplificava seus poderes. Essa era metade da importância do nom de guerre de um mutante, não era? Explicar seus poderes antes que precisassem perguntar. Na primeira semana, soube através de um militante dos direitos mutantes que já existia um Chrome, um já falecido capanga de Magneto. Querendo se distanciar de qualquer relação com aquele homem assustador, ela decidiu se chamar Chroma, o que trazia (pelo menos para ela) um certa sensação de empoderamento feminino.

Ela sempre teve dificuldades em decidir o que fazer da vida. Sem muitos sonhos ou grandes paixões, nem mesmo com traumas e dificuldades extremos, ela seguia pela vida na pista do meio, sem grandes excessos. Era uma vida que não era nunca mais nem menos, uma vida monótona e confortável, mais uma pessoa na multidão. Ela não sabia dizer, hoje, se gostava ou não daquela vida que seguia. Só que quando a revelação chegou, as coisas espiralaram fora de controle e não tinham mais volta. E era tudo culpa dela.

Um dia, no bar com os amigos de faculdade, ela serviu todos de cerveja e colocou a garrafa de volta na mesa. Alguns minutos depois, comentaram que a garrafa estava vermelha. Isso levou a meia dúzia de comentários, uns mais alarmados que outro, e outra garrafa veio. Mais tarde, em seu apartamento, ela ouviu um grito vindo do banheiro. Era sua amiga, que passara a noite dormindo no sofá e ao se olhar no espelho, viu que seu cabelo estava azul. Foi quando ela descobriu que era Chroma - possuía a habilidade mutante de mudar a cor das coisas.

Claro, uma mutação tão pequena podia ser ocultada se fosse controlada. Mas vendo na TV todos aqueles homens e mulheres uniformizados, como eles pareciam tão acima dos problemas mundanos que ela enfrentava sonolenta dia-a-dia, ela se decidiu. Não seria só uma mutante, seria uma mutante uniformizada, uma super-heroína.

As boas intenções de Chroma não deram muito certo. Seu poder primeiro ajudou com a confecção do uniforme - era só juntar as pessoas que queria e depois mudar as cores ao seu bel prazer. Após alguns dias rodando pela cidade em seu novo uniforme e recebendo mais atenção masculina do que nunca (ela nunca se achou muito bonita, mas aparentemente colantes e decotes tinham esse efeito), ela encontrou o primeiro crime em que se intrometeu - um assalto a uma farmácia. Felizmente eles não tinha armas. Ela foi empurrada para o lado, tentou perseguir os ladrões, ficou sem fôlego mais rápido que esperava. Não teve a chance de mudar a cor de nada. Mas perseverou em seu objetivo de se tornar um símbolo de alguma coisa através de suas ações e poderes. Ajudou um policial a impedir um estupro, ainda sem mudar a cor de coisa alguma. O policial, apenas um pouco mais velho que ela, recomendou que ela entrasse para a força policial ou procurasse um dos grupos de ajuda mutantes da cidade. Ela não gostou das sugestões e continuou nas suas patrulhas, até interromper um assalto a mão armada. Chroma nunca teve nenhum treinamento de defesa pessoal ou artes marciais, mas dessa vez ela pensou no que fazer. Saltou pela porta, a capa segura firme nas mãos, balançando-a enquanto trocava as cores da mesma com velocidade estonteante e se movia rápido na direção de seu alvo, seu vilão. O show de cores atordoou o homem por tempo suficiente para o soco de Chroma atingi-lo em cheio. Ela tomou a arma dele, eufórica, e apontou para o mesmo para que não se movesse. Nervosa e sem nenhuma prática com armas de fogo, ela atirou sem querer.

Presa por homicídio, com a faculdade interrompida, Chroma não tinha muito mais o que fazer na cadeia a não ser praticar seus poderes de mudança de cor (ela ainda não conseguia mudar as cores de algo que não estivesse tocando, por exemplo) e se manter viva.

Faltando dias para ser liberada, ela não fazia idéia do mundo que encontraria lá fora ou do que faria quando saísse. Ela era só uma menina que mudava cores.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

A curva 4.0

A curva

A música soava com uma frequência rotineira, criando uma sedutora trilha sonora que
vazava suavemente dos alto-falantes. O som de teclados eletrônicos e percussão leve era meu parceiro fiel em nossa jornada através das cortinas de negrume da madrugada. As janelas estavam frias ao toque, evidenciado a temperatura mais baixa do lado de fora, o que me enchia de estranheza. Sentia um frio brutal, invasor, me penetrando a carne e os ossos, gelando meu sangue nas veias. Através das manchas de impressões digitais que pintavam o vidro em sua sujeira, observei atenciosamente um casal se abraçando na esquina e invejei, de dentro do meu pesado casaco fechado, o calor que eles dividiam enquanto se protegiam da chuva, que escorria como uma preguiçosa cascata das marquises para as calçadas.

A música pulsou num timbre mais alto, porém ainda gentil, como o chiado distante de um pote de água fervente. Lancei um olhar rápido para ela, que dirigia, a testa franzida em uma careta permanente. O céu já brilhava fracamente, dando-nos um vago vislumbre da aurora distante. O carro disparava agora por um trecho dolorosamente reto da estrada, sem muito o que se observar pela janela. Ela não tinha movido o volante nem ao menos dois graus nos últimos vinte minutos. Eu não me lembrava a última vez que a havia ouvido falar desde que entramos no carro.

Um trem havia saído da cidade uma hora atrás, mas não esperara por mim. Enquanto aguardava, sentado em minha única mala, um cigarro pendurado nos lábios secos, percebi finalmente que outra época havia chegado, mas não a que eu esperava. Eu esperava a época dos recomeços, aguardava ansiosamente a aurora da minha nova era. Mas a época que chegava era simplesmente aquela dos resfriados e sobretudos, então abri minha mala e vesti meu casaco. Ao abrir a mala, vi uma foto de nós dois. Imediatamente, resquícios das memórias do verão inundaram minha mente e reconheci que ainda eram os dias que eu guardava mais carinhosamente nos confins do coração. Fomos tão perfeitos e tão felizes naquele verão e me sentia reconfortado ao pensar que se lembrariam de nossos sorrisos, ainda que fosse apenas por ser só o que conheceram. No começo, ela era como uma flor para mim, brotando de uma terra morte que mal tinha ervas daninhas, se dobrando na minha direção. Me agarrei ao caule dessa flor e puxei até arrancar suas raízes do chão, pensando que assim encontraria o que tanto procurava. Em minhas mãos, as pétalas murcharam e escureceram, então apressadamente a coloquei de volta na terra para que ainda pudesse viver e fui embora. Onde teria errado? De quem era a culpa? Saí da estação na mesma hora, a foto no bolso, com a certeza de ter errado ao ir embora. Ao sentir a chuva fria da tempestade que se aproximava, vi o carro dela estacionado.

A música parou, o que me tirou das lembranças, me jogando de volta para a atmosfera gelada daquele carro. Sem o som da música, o carro parecia parado também, a paisagem tão repetitiva que era estática. Considerei que se estávamos quietos na viagem era porque queríamos chegar em casa. Sem desviar o olhar, com um gesto quase mecânico, ela apontou para o botão de reprodução suavemente com a ponta de sua unha manicurada. Eu a impedi, segurando sua mão, que ela rapidamente levou de volta para o volante. Eu finalmente estava sendo resoluto... poderia ela me pedir para mudar?

No final do verão, passamos uma tarde surfando. Eu dividi o pouco conhecimento que tinha com ela e depois assistimos o sol se pondo, a cabeça dela apoiada no meu ombro carinhosamente. O céu deixava de ser um azul tão claro, se tingindo de laranja e vermelho, escurecendo de cima para baixo. O sol distante parecia uma gota de sangue sumindo num copo d'água. Me surpreendi ao perceber que ela estava falando. "Desculpe", eu disse sem desviar o olhar. "Eu não ouvi o que você estava falando. Não ouvi o que você disse antes também." Quando nossa primeira briga começou logo depois, eu me perguntava se tínhamos chegado àquele ponto antes e se chegaríamos nele de novo. Eu não sabia mais o quanto devia esperar dela.

"Por que você está fazendo isso?", ela disparou, finalmente falando, sem esperar uma resposta. Sua voz penetrou o ar viciado como um bisturi fazendo uma incisão, tão inesperadamente afiado que fez meu coração saltar. Dessa vez, ela tinha minha atenção incondicional.
"Eu não estou fazendo nada", eu disse, sem um átimo de crença no que dizia, enquanto ela tocava nervosamente o botão de reprodução. "Isso é o que é melhor. Para mim, para você, para nós." Ou talvez apenas para mim, pensei, enquanto uma lágrima se formava no canto de seu olho esquerdo. Ainda chovia; não uma torrente mas uma garoa fina, triste e gelada que parecia seguir o ritmo sonolento que pingava dos alto-falantes. Eu não te amo mais, era tudo o que eu queria dizer. O frio me abraçava com o carinho de um falso amigo e a aurora se esticava preguiçosa no horizonte, provocando com a promessa de um amanhã melhor.

Ela olhou para baixo e fechou seus olhos por um pouco mais que um instante, suas mãos delicadas se fechando com força no volante. Ela se voltou para mim rapidamente;
se olhares pudessem matar, eu teria sido fulminado ali mesmo. Súbito, a música jorrou dos alto-falantes, pulsando forte, raivosa. Então ela estava chorando, então ela estava gritando, então eu estava gritando. Nos perdemos na cadência da canção, duas poças crescentes na tempestade que se formava dentro do carro enquanto do lado de fora parava de chover. Fazíamos chover confissões e insultos, sem respostas ou soluções... e nós nem ao menos sabíamos as perguntas.

Nossas vozes entrecortadas se tornaram parte da música. O carro dardejava pela noite. Enquanto nossas vozes diminuíam, a cadência novamente dominou o ar. Adiante, uma curva se aproximava. Ela não fez menção de desacelerar.