quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Apesar de toda sua raiva, ainda era um rato em uma gaiola

André ajeitou as cobertas para se sentir mais aquecido. Era mais uma noite fria de julho, mais um lembrete silencioso da solidão na qual ele estava imerso. O jovem rapaz sentia o corpo e a mente cansados, ansiava pelo repouso reconfortante do sono, mas pensamentos diversos cruzavam-lhe a consciência, impedindo-o de dormir.
A mente cansada de André, após a costumeira maratona que era sua vida de estudante de colégio integral, percorria cuidadosamente os eventos nada normais da última semana, revisando-os e tentando tirar algum sentido dos mesmos.
Chateado com sua incapacidade de dormir, levantou-se, derrubando as cobertas no chão. O frio o abraçou como uma amante falsa e mesquinha; uma sensação que o rapaz ainda não conhecia, mas que logo figuraria entre suas lembranças mais detestadas.
O corpo todo doía. Sem dúvida, os eventos recentes haviam exigido dele mais do que estava acostumado a fazer. Não que ele fosse completamente fora de forma; mesmo consumindo uma quantidade assustadora de comida pouco saudável, André contava com um metabolismo acelerado próprio da adolescência e exercícios regulares na forma de natação e aulas de judô. Nada disso o havia preparado para uma maratona de fuga, correndo e se escondendo por mais de seis horas. Ele sentia que seu corpo devia doer mais devido aos golpes que havia recebido, mas estranhamente até as marcas roxas da pele sumiram em pouco tempo. De certa forma isso preocupava o rapaz.
O que mais o preocupava, porém, é que independente da bizarrice de seus últimos dias, o que mais o incomodava e o que realmente o impedia de dormir era a mudança no comportamento de Vanessa. Em um dia estavam tão próximos, no outro tão distantes. O que podia estar acontecendo para aquela menina que ele sabia ser tão solitária subitamente se afastar de quem ela mesma dizia ser seu único amigo?
Então, alguma coisa bateu na janela de André. Fogo queimou nos seus olhos e no seu sangue. Seu coração se acelerou. E uma parte do que era ele, pequena mas significativa, morreu naquele momento.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Epílogo

Parado diante da fachada recém-pintada da padaria, André tentava impedir que sua mente fosse inundada de pensamentos, sem muito sucesso. Os últimos anos haviam redefinido sua vida, alterado seus conceito e ele quase não conseguia se reconhecer, de quando em vez. Era tão estranho assim esperar que ele se lembrasse das coisas como eram, que o encontraria sentado diante do balcão como se não houvessem passado anos e sim dias? André se sentia tolo, inadequado, apertado dentro de suas roupas escuras. Sentiu um pouco de medo.

Achava tolice depois de tudo que já tinha se passado com ele, mas não conseguia evitar. Suspirou e entrou na antiga padaria, tão conhecida das manhãs de sábado. Ele esperava que o lugar fosse parecer diferente, distorcido - como ele próprio. A padaria, recém-pintada, com novos funcionários uniformizados, ainda parecia o mesmo lugar, de alguma forma. O mesmo cheiro de pão novo, a mesma rachadura circulando a grande lâmpada central.

Daniel estava sentado diante do balcão, com duas garrafas vazias de Coca-Cola diante dele e uma em suas mãos. Ele saudou André com a garrafa e o mais novo se sentou no banco ao lado.

- Você não mudou nada. - disse André ao se sentar, pesar de Daniel ter abandonado o cavanhaque e usar o cabelo um pouco mais curto. Sua aura continuava a mesma e André se acostumara a ver as pessoas assim.

- Não posso dizer o mesmo de você. - respondeu o ex-vocalista dos Ratos.

Era verdade. André crescera, como era de se esperar - regulava altura com o primo, agora. Seus olhos estavam mais escuros, sua voz mais grave, seus movimentos mais econômicos, sua postura mais alerta, sua pele mais queimada do sol. Vestido em uma calça de brim preta e uma camiseta cinza, parecia outra pessoa. Ele mesmo pensava concordava com o comentário, fazendo raciocínio similar quando se lembrava das cicatrizes novas - físicas e emocionais.

Um silêncio desconfortável se instalou. André mantia um sorriso bobo de fã diante do primo que - percebia agora - ainda era seu ídolo. Daniel bebia a Coca-Cola em goles pequenos, sem dar muita atenção ao resto do mundo.

- Então, - começou André, a voz saindo errada. - o que tem feito?

- O mesmo de sempre. Você?

Daniel mentia, embora sem saber. Os Ratos haviam se separado, ele não namorava mais Melissa, não trabalhava mais na loja de discos, havia vendido o carro. Para ele, porém, a vida continuava igual. Nada lhe parecia ter mudado. A falta desse conhecimento causou em André forte inveja. Ele sentia falta dos velhos tempos, da tranquilidade e - por que não? - inocência de sua juventude. Sentiu vontade de contar ao primo tudo que havia feito nos últimos anos, mas sabia que não devia. Escolheu contar parte da verdade.

- Faço uma tradução aqui ou ali. De vez em quando fico de intérprete. Tenho viajado bastante. Freelance, sempre.

- Que foda, cara. - Daniel disse, faltando ênfase nas palavras. - Muito foda mesmo. Tá curtindo?

- É... às vezes. Sei lá. - Dúvida. - Sinto... sinto falta dos velhos tempos.

- Você cresceu, cara. Você cresceu. É só isso. - Daniel deu um tapa camarada no ombro do primo.

- Mas sabe... às vezes eu não me reconheço. As coisas que eu faço, que eu tive que fazer... eu não me sinto mais a mesma pessoa. Me olho no espelho e penso... 'quem é esse cara?', sabe?

- Não, cara... não sei não. Mas se liga. Tu passou dessa fase, tu cresceu mesmo. Evoluiu, sei lá. Não tem que se sentir esquisito, porra. - ele ia acender um cigarro, mas desistiu.

- Se isso é evolução, Darwin é um babaca.

Riram os dois. Daniel riu de verdade. André riu por hábito.

- E a Melissa? - perguntou André.

- Se mandou. - Daniel deu de ombros. - Se mandou. Faz uns meses já... um ano talvez. Coisa assim. - Diante dos olhos arregalados do primo, adicionou. - Essas coisas acontecem. Você vai ver.

André sorriu, duvidando entrar em um relacionamento tão cedo.

- Você trouxe o que eu pedi? - o primo mais novo mudou de assunto rapidamente.

- Trouxe. - Daniel tirou uma foto do bolso e entregou para o primo. - Por que isso é tão importante?

André olhou a foto velha de um ensaio dos Ratos. Todos os velhos amigos enfiados no estúdio bolorento, cabelos grandes desgrenhados, camisetas pretas.

- É importante. Pode crer, é importante.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Gris II

- Se insanidade leva ao caos e então à solidão, se medo leva à fúria e então ao Lado Negro... então tristeza leva à apatia e daí para a morte. - ela sussurrou roucamente por entre lábios secos disfarçados pelo batom preto.
Um suspiro doeu-lhe o pulmão, mas não a impediu de tragar novamente. Jogou as cinzas no chão com o desleixo de quem não quer mais se importar, sujando de cinza o piso de tacos.
Uma mancha de cor indefinida surgia no teto, denunciando uma infiltração. Ela não se permitiu chorar. Queria dizer que já tinha secado todas as suas lágrimas, mas seria uma mentira. Ela ainda tinha muito o que chorar, só não queria fazê-lo agora.
- Preciso continuar no estágio da tristeza.
Antes de sair, ela lançou um olhar para a convidativa garrafa de tequila em cima da mesa. Parou no batente da porta, seus olhos se encheram de lágrimas.
Não! Ela repetiu para si mesma no silêncio da própria mente, a mão manicurada estrangulando a maçaneta. Os lábios secos, cobertos de batom preto, franzidos.
Ela bateu a porta ao sair e correu pelas escadas, coração pulando no peito, garganta seca, saltou dois degraus, em movimento no mundo parado, colorida no mundo em preto e branco.
- Posso até voltar para casa cinza. - limpou as lágrimas. - Mas nunca sair.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Para onde vão?

Era uma grande montanha, de encostas traiçoeiras e escorregadias, uma cicatriz no céu azul. Ele a escalou e depois atravessou um rio a nado, a mochila lhe pesando nas costas o tempo todo.
Comia peixes que catava pelo caminho e frutas - quando as encontrava.
Enfim chegou sujo e cansado ao seu destino, um templo escondidos entre pedras enormes. Estava sujo, cansado e faminto. Não por comida - a essa fome já havia se acostumado faz tempo. Tinha fome de respostas.
Uma vez no templo, foi recebido por monges trajando robes simples e cabeças raspadas. Testaram sua coragem em uma sala forrada de brasas, sua sabedoria com uma série de enigmas e sua ambição com uma única pergunta.
Finalmente, ele foi levado à presença da Sábia.
- Para onde vão os corações partidos?
- Eu não sei. - ela respondeu, enfiada em diversas camadas de pano vermelho. - Mas sinto falta deles, de alguma forma.
- Eles podem encontrar seu caminho pra casa?
- Eles nunca foram embora.

terça-feira, 30 de março de 2010

Whereabouts unknown

nosoul: CHICKEN PORRA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
nosoul: onde vc estava caralho?
Thiago Shinken // Céu é tudo aquilo acima do chão: to em aula, pô. fico com menos tempo.
nosoul: porra
nosoul: entao é assim, uma educacao de segunda vale mais do q ficar aki babando meu ovo?
nosoul: vlw
nosoul: bom amigo vc