segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

O dia em que ela parou de tentar (e conseguiu)

Ela parada diante de uma loja de relógios. Quando criança, achava o tic tac constante reconfortante e gostava de observar os diferentes relógios – as torres de mogno, os pequenos circulares pendurados nas paredes, os cucos.

O céu cinzento vomitava minúsculas gotas de chuva fria que atingiam ritimadamente o pequeno guarda-chuva preto que ela segurava em uma mão; a outra estava enfiada na bolsa, segurando alguma coisa com força. Vestia um sobretudo marrom-escuro, um par de botas recém engraxadas, calças de brim e camiseta. A maquiagem aplicada com perfeição milimétrica no rosto tentava disfarçar qualquer imperfeição que tivesse surgido nos últimos anos. Os olhos, pequenos do choro da noite anterior, corriam de um lado para o outro da rua deserta.

E ele apareceu diante dela, saído de lugar nenhum. Cabelo despenteado, a barba por fazer, jeans e camiseta, exatamente como ela se lembrava. Mãos dentro dos bolsos.

- Oi. – ele disse, um meio sorriso se formando.

- Oi. – ela respondeu, num misto de assustada e ansiosa.

Continuaram se olhando. Ela segurando o guarda-chuva e ouvindo o tic tac para se fingir segura. A chuva continuava e ele impassível, mantendo seu eterno meio sorriso. Ela pensando na última vez que o vira sorrir por completo.

- Então. – ele começou, sabendo que ela não o faria. – Você me chamou aqui.

Ela apenas acenou com a cabeça.

- Pra gente ficar junto. – ele concluiu. E ela acenou.

Mais silêncio, mais chuva. E ela apertando alguma coisa dentro da bolsa.

- Então, é assim...? – o meio sorriso dele quase se desfez. – Pensei que... Existem outros jeitos.

- Prefiro assim. – ela quase chorando.

- Conseguiu com seu tio? Ele é militar, não é?

- Ele é. Mas não contei nada. – ela chorando, arruinando a maquiagem.

- Não é que eu não queira. – ele passou a mão pelos cabelos secos. – Tudo que eu quis nesses últimos anos... foi ter você. Ter você comigo. Ter você comigo de novo. Mas, mas assim? Não sei. E as crianças?

- Ficam com a minha mãe. Já está tudo certo. Eu tenho dinheiro guardado. Não vai faltar nada para elas. – os nós dos dedos dela brancos, apertando o guarda-chuva e uma coisa dentro da bolsa.

- Eu senti muito a sua falta. – e ele completou o sorriso.

- Eu sinto muito a sua falta. – e mais lágrimas, borrando a maquiagem.

- Então vou estar te esperando. – um passo para trás.

E um estrondo surdo, um estampido. E cheiro de pólvora. E cheiro de sangue. E a chuva caindo.

2 comentários:

Unknown disse...

me senti tocado, cara vc está de parabéns :)

Nota 10

Crônicas da II Era disse...

Vai fazer o seminário de linguistica Ò.Ó, e essa mulher é uma vadia.