sábado, 3 de outubro de 2009

O homem que não tinha nada

A primeira vez que o vi foi no caminho para o trabalho. Um senhor maltrapilho, aparentando seus cinquenta anos. Talvez fosse mais novo - a sujeira e a tristeza envelhecem as pessoas e eu nunca tinha visto alguém tão sujo e triste quanto aquele senhor. Ele estava sentado em um dos bancos verdes desbotados da praça, olhos fechados, cabelos desgrenhados, segurando com enorme carinho e cuidado um buquê de rosas mortas.
Durante semanas eu passava diariamente pela praça e, mais frequentemente que não, via aquele senhor, triste e sujo como eu jamais havia visto. Ele permanecia sentado no mesmo banco verde desbotado, vestindo os mesmos trapos, segurando o mesmo buquê de rosas mortas. Com o tempo, me perguntei como ele fazia para comer, se ele dormia naquele banco. Ele se tornava uma figura cada vez mais familiar e eu tinha vontade de oferecer alguma ajuda, de conversar, de acenar. A tristeza dele, tão flagrante e tão sincera, não me incomodava nem causava pena - servia de lembrança da minha própria angústia e de como ela era pequena comparada com o senhor do buquê de rosas mortas.
E um dia ele não estava lá. Achei estranho, mas acontecia de tempos em tempos - acreditava que era nesses momentos que ele se alimentava. No dia seguinte, ele não estava em seu banco novamente. E no dia seguinte também. Depois de uma semana achei que ele nunca mais voltaria e acabei me esquecendo daquele senhor e de seu buquê de rosas mortas.
Meses depois, passava pela praça numa tarde triste. Chovia fino, estava frio e a praça estava vazia exceto pelo senhor que novamente se sentava naquele banco, com apenas uma rosa morta nas mãos. Finalmente decidi que precisava conversar com ele.
Tentei falar, acenar, cutucar. Só o que ele fazia era segurar a rosa, olhar para o vazio ou olhar para aquele pedaço de planta já morta faz muito tempo como se fosse a coisa mais linda do mundo. Foi uma senhora rechonchuda quem me explicou.
- Ele era apaixonado por uma moça. Era um amor bonito de se ver. Eles se gostavam muito e ele fazia tudo por ela.
"E como ele ficou assim?" eu quis perguntar mas ela já sabia o que eu queria saber.
- Ele vivia por causa dela, no final. Amava demais. Deixou amigos, deixou família, deixou a moral, deixou o orgulho. E então ela não o quis mais. Por que ele não tinha nada, só o amor por ela. E o amor sozinho não dura muito. Ele apodrece e morre.
Quando a chuva ficou mais forte, não sobrou muita coisa da frágil rosa que o triste homem sentado no banco verde desbotado segurava.
No dia seguinte, ele não estava mais na praça e eu nunca mais o vi.

Um comentário:

The Fool disse...

Bom conto. Triste, mas eu gostei.
Bom...Thiago, tu ainda mestra rpg? É irl ou pela net? Eu gostaria de jogar.
Abraços.