Origens - segundo consta nos anais da egolatria - são narrativas prodigiosas de bravura e maestria. Histórias incríveis de feitos que ardem como brasas, que nos falam de homens aptos a voar sem asas, a sobreviver a balas e bombas, tudo isso sem descanso... e de por que quase nunca essa turma afoga o ganso. Razão pela qual sentimo-nos culpados e pesarosos, uma vez que nossos relatos, embora esplendorosos, nada mencionem de raios cósmicos de alta freqüência e de outras desagradáveis perversões da ciência. Em suma, iniciou-se esta fábula de cunho psicótico com um reles extravasar de líquido amniótico. Há de perpetuar na infâmia o
nome dos pais da besta-fera, se não lá, então no fétido lamaçal onde o palavrão impera. Ou melhor, perpetuar-se-iam não se houvessem perdido no subseqüente holocausto que a tudo deixou aturdido, dando cabo e destroçando qualquer forma de registro civil quer de esperma, quer de placenta, de ovo ou de parto tão vil. Reza a lenda, se é que, em alguma parte, lenda reza, que o parto durou um mês de asquerosa torpeza. E quando se aflorava a dilatação em toda a sua amplitude, estando iminente a circustância da maior desvirtude, urrou a prturiente que não mais suportava, como se cedendo à cólica maior que a detonava. Rasgando tudo que havia nela desde o pêlo encravado à canela, em meio a podreiras e conteúdo amoral, nasceu assim o famoso maioral. Ainda hoje, aqui e acolá, há quem defenda a idéia saudável, ainda que horrenda, de que deveria o serviço social czarniano esfolar a criança de modo torpe e desumano. Mas, em verdade, vozes essas servem mui raramente para algo além de reclamar Eu não disse, minha gente? Quando o serviço social acolheu aquele agitado pivete a ninguém ocorreu meter-lhe nas fuças um canivete. Para sua eterna e mais que duradora desgraça, os assistentes sociais que encararam a bagaça, por mais que tentassem, não viram outra opção a não ser oferecer o pequeno traste à adoção e rogar para que o otário que acolheste o fedelho fosse pervertido, selvagem e de espírito parelho. Então, a criança prosperou e chegou à idade adulta, fazendo ao avesso tudo o que faria uma pessoa culta. Tiroteios, degolas, extorsão e assassinatos. Cafetinagem, estupros, seqüestros e estelionatos. Todavia, ainda que a vida tudo fizesse para ocupá-lo, sua mente ruminava idéias dignas de causar abalo. Ele ponderou "Se tantos se parecem comigo, o que fazer para livrar-me deste castigo? Meu ego clama por ser o único da minha laia!" E, ansioso
por formular alguma ignóbil maracutaia, empreendeu em seu pútrido cérebro, enorme devassa, concebendo nada mais que extermínio em massa. O diminuto agente bacteriano, letal como pitonisa, cultivado por ele após anos de intensa pesquisa, avançou sobre tudo que avistou pela frente até não sobrar ser vivo, beato ou descrente. Ao contemplar a extensão e a pujança de sua obra funesta, disse: Ei, eu levo jeito! Taí uma coisa que não me molesta. A matar, mutilar e trucidar minha vida dedicarei. Não necessariamente nessa ordem, assim farei. E honorários para meus serviços muitos hão de pagar. De tanta grana, com certeza, eu vou me embriagar. Não farei alianças ou terei qualquer tipo de parceiro. Rodarei sozinho pelas vias deste cosmo trapaceiro. E tendo vociferado tudo que havia para ser dito, deixou seu planeta rumo ao espaço infinito.
Desta modo gratuito, violento e um tanto bobo, teve início a sensacional carreira de Lobo!
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